segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Kant - parte III


A dignidade humana reside, segundo Kant, na própria racionalidade. Assim, qualquer acção deve sempre levar em consideração a possibilidade da pessoa decidir por si. Caso eu seja empresário e receba uma proposta de encomenda, o meu dever é informar devidamente o meu interlocutor quanto às minhas possibilidades de cumprimento ou não do acordo para que possa decidir livremente. Isto é, se receber a proposta de encomenda e aceitá-la mesmo sabendo que não consigo entregá-la atempadamente, estou e mentir e, por isso, não estou a respeitar a dignidade da outra pessoa. Pelo contrário, se informar o meu parceiro de negócio da impossibilidade de expedir a encomenda dentro do prazo, estou a respeitá-lo. Nas palavras de Kant, no primeiro caso, não estou a agir por dever porque estou a utilizar a pessoa como um meio para as minhas aspirações. Respeitar a dignidade da pessoa é considerá-la um fim em si mesmo, permitindo que, no caso relatado, ela seja capaz de decidir de acordo com a sua própria racionalidade. Deste modo, a única forma de agir moralmente é agir de acordo com um imperativo que tem a sua génese na autonomia da vontade. O que significa ser autónomo?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Kant - parte II


Por volta do século XVIII, surge na Europa uma ideia que marcou de forma indelével toda a história humana. Sistematizaram a ideia de racionalidade como contraponto ao pensamento feudal ainda dominante.É neste ambiente que Kant elabora a sua Fundamentação da Metafísica dos Costumes. 
Qual a melhor forma de encontrar um princípio que seja a base de uma ética e que possibilite a todos, independentemente das crenças, cor de pele ou outras idiossincrasias, promoverem acções consideradas morais? Obviamente que a raiz desse princípio encontra-se na razão, faculdade presente em todos os seres humanos. O que é, então, agir racionalmente? O ser humano, pelo menos até hoje e possivelmente nos próximos anos, é capaz de fazer matemática, publicar livros de filosofia, realizar filmes e produzir música. Decorre daqui que existe algo de misterioso em nós: designou-se de razão essa misteriosa faculdade humana. Ser racional significa ter desejos, intenções, decisões e crenças. Mas não basta isto para dizermos que o ser humano é racional. Temos que acrescentar a possibilidade que ele tem de olhar por cima do seu ombro e, assim, descobrir o que é ou não correcto fazer. A sua generalidade, isto é, a sua capacidade de ler e avaliar a realidade, seja o que isso for, acima de qualquer tendência subjectiva, é uma marca perfeita para construir algo que esteja acima dos meros interesses pessoais. Por este motivo, Kant afirma que, se pretendemos ter algum ensejo ético, devemos tratar as pessoas com dignidade. O que é a dignidade humana (perdoem-me o antropocentrismo)? 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Excitações

As maravilhas da sociedade de informação. Por vezes é necessário deitar um pouco de água na fervura na excitação informativa. É sempre bom termos cuidado para não cairmos no ridículo, que é um estado que nos apela permanentemente à sua presença:

http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/publico-esclarece-golpe-publicitario.html

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ética: Immanuel Kant. 1ª parte

Immanuel Kant (1724-1804)

Depois de nos debruçarmos sobre o Relativismo e o Subjectivismo, vamos abordar duas perspectivas que colocaram como desiderato fundamental a descoberta de um princípio que estabeleça os fundamentos da ética. Começamos com Kant, filósofo por excelência.
Kant construiu um sistema filosófico para responder a uma questão fundamental: poderá a Metafísica ser considerada ciência? Para tal fez uma Crítica da Razão Pura, onde esclarece os pressupostos do conhecimento e uma Crítica da Razão Prática para estabelecer as condições para uma Fundamentação Metafísica dos Costumes. A ponte entre estas duas «realidades» seria feita pela Crítica da Faculdade de Julgar. Acima de tudo, a filosofia de Kant mostra uma evidência: A filosofia é uma das belas artes. Infelizmente não iremos abordar todo o programa kantiano, pois a Fundamentação da Metafísica dos Costumes será a obra que nos interessará.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Subjectivismo Ético. Objecções


Escher

Baseando-nos ainda em J. Rachel, podemos dizer que o subjectivismo ético promove a ideia da infalibilidade do juízo humano. Ora, o contrário é que é verdade.O sentimento, apesar de por vezes ser honesto, pode errar. Dito isto o desacordo faz parte da discussão ética. Se alguém diz que o racismo é um mal e outro alguém defende que é um bem, então existem duas versões contraditórias. Nestas circunstâncias, não podem coexistir duas verdades sobre o mesmo assunto. A expressão de atitudes deve pressupor uma RACIONALIDADE, sob pena de cairmos no vazio. Portanto, que me desculpem os adolescentes, o subjectivismo está errado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Subjectivismo Ético. Ideias gerais

Pessoas diferentes têm códigos morais diferentes.
O modo como cada qual sente confere-lhe legitimidade para avaliar eticamente.
Não há qualquer padrão objectivo que se possa usar para ajuizar um código social como melhor do que outro. Moralmente falando, não há factos.
As opiniões morais baseiam-se nos nossos sentimentos.

Subjectivismo Ético

Lipovetsky (Era do Vazio) chamou-lhe «neo-individualismo» para designar uma tendência pós-moderna de vincar o projecto individual como o fim último da existência. Mais do que nunca, o sujeito ocupa o lugar central, funcionando como alavanca dos critérios estéticos é éticos. Como se caracteriza o subjectivismo ético?
  
Escher
      As pessoas têm opiniões diferentes, mas no que concerne à moral não há factos. As pessoas simplesmente sentem de modo diferente. Quando dizemos que as acções foram más estamos a dizer que temos sentimentos negativos em relação a elas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Opinião da Sara acerca do relativismo

Pelo simples facto de haver desacordo entre culturas e elas possuírem códigos morais diferentes, não podemos concluir a não existência de uma moral universal única. É certo que o relativismo torna-nos mais abertos e apela a que tentemos ser benevolentes com aquilo que é praticado nas outras sociedades. No entanto, adoptando esta visão de forma radical, perdemos o nosso espírito crítico. Deixamos de poder criticar não só as outras práticas culturais, como também as que existem dentro da nossa própria sociedade (e que, por vezes, temos dificuldade em compreender). É importante as pessoas discernirem bem a sua posição e é crucial perceberem a diferença entre racismo e opinião crítica. Podemos criticar o que pensamos não ser correcto sem com isso sermos acusados de racismo. Sem este espírito, nem sequer existiria progresso moral. Pessoalmente, penso que qualquer cultura deveria sempre e acima de tudo respeitar a vida e a dignidade humanas. Obviamente, sou contra certas práticas, ainda que tenha consciência que há sempre muitos factores em jogo. Rachels dá o exemplo dos esquimós que matam as bebés, porque há falta de comida e, uma vez que os homens são os seus principais fornecedores, são mais precisos. É uma questão de sobrevivência. Será que com esta prática os esquimós dão menos valor à vida humano do que nós?


Sara Gonçalves.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ideias Relativistas


O Relativismo Social e moral é um conceito, diríamos nós, pós-moderno, apesar da sua existência remontar aos primórdios da interrogação racional, como se verifica na corrente desenvolvida pelos Sofistas. Contudo, actualmente o horizonte relativista e subjectivista revestiu-se de novos contornos. Com o desmembramento do modernismo (período que estende, mais ou menos, desde o séculoXVI e séc XIX), que se dinamizava pelas suas valências éticas que pressupunham uma racionalidade universalizante, surge o pós-modernismo que, por sua vez, investe na pulverização das personalidades e na adequação das instituições ao indivíduo. O efémero toma parte das instituições, o subjectivismo e o relativismo ocupam as discussões, levando à não discussão. Por que se verifica isto? Pelas subtis ideias do relativismo:
1.As sociedades possuem códigos morais diferentes.
2.Esse código social determina o que é correcto no seio da sociedade.
3.Não há qualquer padrão objectivo que se possa usar para ajuizar um código social como melhor do que outro.
4.Nenhuma sociedade se sobrepõe a outra no que respeita aos valores morais.
5.Não existe qualquer verdade universal.
6.Não devemos julgar as condutas dos outros povos.
(adaptado de James Rachel, Elementos da Filosofia Moral, Gradiva)
Imagem retirada de http://logosecb.blogspot.com/2010_03_01_archive.html

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Relativismo e Ética

Nos argumentos apresentados para defender uma posição ética é comum as pessoas não saberem argumentar. Geralmente partem de uma premissa particular para uma conclusão também particular. É comum ouvir-se o seguinte argumento: Como o meu vizinho não paga impostos, também não pago impostos. Obviamente que, filosoficamente falando, isto é uma brincadeira de crianças. O meu não pagamento de impostos não decorre do incumprimento do meu vizinho. A argumentação exige argumentos válidos. Assim, quando quero defender a minha posição acerca dos touros de morte devo reforçá-la por princípios que sustentem o meu juízo:

Sacrificar animais para divertimento é errado
A tourada com touros de morte é um espectáculo
Logo, as touradas com touros de morte são erradas

Contudo, isto levanta um problema sério. Há sociedades em que sacrificar animais para espectáculos não é de todo errado. Há países em que a luta de cães ou de galos está institucionalizada. Podemos, em virtude deste relativismo, condenar essas práticas? É bastante fácil constatar o princípio fundamental do relativismo ético: diferentes sociedades possuem diferentes padrões éticos. Contudo, ao admitir este facto, devo admitir que qualquer padrão é válido. Ou não?
Vamos discutir o Relativismo.