quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Bento Espinosa - Parte II

 
 
Não nos dispensemos de conhecer a biografia daqueles homens e mulheres que nos despertaram admiração ou curiosidade nas artes, nas ciências, na filosofia. Eleva-se a um patamar terreno a nossa admiração pelas suas criações, relativiza-se a sua condição que é, afinal de contas, humana. Tão pernicioso é um preconceito como o é a mistificação de um fenómeno natural, ou meramente social, e o endeusamento acrítico de quem quer que seja. Na realidade, somos todos humanos, com defeitos e fraquezas. Porém, diferentes: há vidas que nos causam mais admiração do que outras. A vida de Espinosa é muitíssimo mais admirável do que a Descartes, a de K. Marx muitíssimo mais admirável do que a Schopenhauer. No entanto, foi precisamente a personalidade de Descartes que nos ajuda a compreender o seu célebre sonho e, consequentemente, o seu revolucionário cogito ergo sum; a personalidade misógina e ressentida de Schopenhauer ajuda a compreender o seu criticismo pessimista que na nossa época regressa à ribalta. Tal e qual se passou e passa com Bento Espinosa, alvo dos ataques mais soezes que algum outro filósofo foi vítima. 
Falemos, pois, de Bento Espinosa, nas curtas linhas que cabem neste espaço.
Baruch era o seu nome em hebraico, Bento (Abençoado) em português. Teve vários irmãos, alguns dos quais faleceram ainda novos. Família de comerciantes relativamente abastados. Quando o pai morreu, Bento recusou a herança paterna para que sua irmã, Rebeca, pudesse com esse dote vir a casar com dignidade. Geriu a loja que transacionava produtos vindos de Portugal, durante algum tempo, mas sem grande convicção: preferia dedicar o seu tempo ao estudo. Aprendeu com brilho o francês, inglês, o hebraico e o latim; os seus estudos do Talmude e da Tora, textos sacralizados pelo povo hebreu, começaram muito cedo, motivo de agradável espanto dos seus mestres que viam nele um futuro e ilustrado Rabi. Desiludiu-os depressa: a sua interpretação dos textos ortodoxos provocaram a cólera da comunidade judaica e acabou julgado e condenado publicamente à expulsão (Cherem), expulsão que se manteve até hoje, apesar de Israel ter atribuído o seu nome a uma rua. Em 1670 é publicado anonimamente o seu Tratado Teológico-Político - imediatamente proibido - investigação minuciosa do Antigo Testamento, obra pioneira, sem paralelo, que escandalizou as ortodoxias e dogmatismos, pela qual se demonstra que o Sagrado é invenção humana e o Verbo divino uma inspiração política.
Enquanto redigia o T. T-P corrigia o seu escrito Tratado da Reforma do Entendimento, fornecendo a ambas as obras o fôlego filosófico que viria a ser alcançado com a sua obra-prima: a Ética, publicada postumamente.
A Holanda era então um país com uma numerosa e enriquecida burguesia, dotada de uma frota marítima que rapidamente substituiu Portugal nos mares e continentes que os portugueses exploraram. Incomparavelmente mais tolerante no plano religioso do que os reinos católicos, sempre cobiçada pela coroa espanhola. Para aí afluíam foragidos e emigrantes em busca de liberdade e de oportunidades de riqueza. Confrontos e intercâmbio de mercadorias, culturas e ideias, geraram crenças messiânicas às quais o nosso admirado Padre António Vieira não foi imune. A liberdade era relativa e instável, os apetites dinásticos e estrangeiros faziam-se sentir e as disputas religiosas podiam incendiar as multidões a qualquer momento. De modo que todos procuravam conservar entre os diversos partidos e confissões religiosas um equilíbrio dificílimo mas suficiente para não prejudicar os negócios. É neste contexto que os judeus ortodoxos condenam Baruch Espinosa, proibindo qualquer contacto com ele. Espinosa não se vergou, transformou a condenação aos infernos numa oportunidade para viver e trabalhar tranquilamente.
Evitava os falsos amigos, falar demasiado de si próprio, escolheu como regra o princípio latino: “Caute” (Cautela). Polia lentes para telescópios e microscópios, em que se revelou um exímio artesão elogiado pelos grandes cientistas do seu tempo que lhos encomendavam. Amigo dos seus amigos, correspondendo-se com alguns dos melhores sábios, contudo não viajava e recusou mesmo uma cátedra em uma prestigiosa universidade europeia. De compleição frágil e cada vez mais doente (sofria de tuberculose que se agravou com o pó inalado dos vidros que polia) não cedeu nunca a sua liberdade e o seu tempo a nada mais que não fosse ler, meditar, limar até ao limite os seus axiomas e postulados insólitos e inigualáveis.
 
José Augusto Nozes Pires

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Bento Espinosa. Parte I




Bento de Espinosa (1632-1677

Utilizo a grafia Espinosa, em vez de Espinoza, embora ele haja assinado com o nome de Espinoza, porque era filho de portugueses (Vidigueira) fugidos da Inquisição, e falava o português. E se tal não é motivo de orgulho patriótico pois que a Inquisição que tão ferozmente reprimiu a nossa cultura, o pensamento moderno e científico, era também portuguesa, não deixa de ser extraordinário: o maior filósofo de todos os tempos era filho de portugueses e falava a nossa língua, conviveu e pertenceu à comunidade de judeus oriundos de Portugal! Muitos deles haviam sido cristãos-novos, isto é, forçados a aderir ao cristianismo sob pena de ser presos, torturados, espoliados dos seus bens e provavelmente queimados em fogueiras nas praças públicas de Lisboa. E é mais extraordinário ainda que um pensador de tamanha envergadura mundial tenha sido desprezado, silenciado, caluniado, e ainda o é hoje! Basta consultar diversas bibliotecas públicas e privadas para constatarmos que a sua obra toda não se encontra lá, por vezes até nenhum dos seus livros.
Não é, portanto, por acaso, nem exceção, que os manuais de Filosofia escolares façam apenas uma menção rápida e superficial da biografia e obra de Espinosa e, pior ainda, o falsifiquem alguns, reduzindo o seu profundo e diversificado pensamento à fórmula determinismo versus liberdade. Em contrapartida dedica-se um capítulo (definitivo para efeitos de avaliação interna e externa, e é isso que conta) ao tema racionalismo versus empirismo, sem que se perceba as motivações científicas e políticas que se encontram na base da sempre renovada controvérsia entre apriorismos e experiencia, entre materialismos e idealismos. Ora, Bento Espinosa é de uma indiscutível utilidade para contatarmos com outra modalidade de racionalismo que não o estritamente cartesiano.

Certamente que há vários modos de aprender e ensinar a Filosofia, inclusivamente expô-la do presente para o passado, ou por temas e escolas, pelas controvérsias entre grandes mestres, etc. Algumas boas Histórias da Filosofia conseguem fazer confluir diversas abordagens, com um estilo límpido, conciso e historicamente fundamentado. São essas que nos deliciam independentemente da idade que tenhamos nessa altura. O que importa é que as teses e os respetivos argumentos, ou os princípios donde se parte e os resultados a que se chega, se tornem claros para o leitor, um pouco à semelhança das histórias maravilhosas de Conan Doyle. Abrir a história com o desenho do quadro – o contexto, a situação – é o “truque” do artista.

De modo nenhum me oponho à leitura desse belo livrinho que é “O Discurso do Método”, de René Descartes (desejaria que muitos o houvessem lido efetivamente). Apenas afirmo que um seu contemporâneo (embora mais novo), Espinosa de seu nome, leu-o, apreciou deveras o seu estilo “geométrico”, subscreveu a tese cartesiana de que a verdade tem de exprimir-se em ideias claras e evidentes por si mesmas, meditou longamente sobre o célebre “argumento ontológico” com o qual Descartes deduzia a necessária existência de Deus, porém deve menos ao genial matemático do que se julgaria, criando um sistema absolutamente singular. O espinosismo veio a ser muito mais influente na filosofia posterior, até aos nossos dias, ainda que, naturalmente, comentado e interpretado conforme as épocas.

José Augusto Nozes Pires