segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Estrutura das Revoluções Científicas. Pequena Análise




A. Leitura da Introdução e do Capítulo 1 de A estrutura das Revoluções Científicas e explicação do que Kuhn quer dizer com "ciência normal" e "paradigma".
Ciência Normal:
1- Pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas.
2- Institucionalização do paradigma. Reconhecimento por parte da comunidade científica dessas realizações.
Paradigma:
1- Teoria ou conjunto de teorias que formam uma visão do mundo e diz o que é a ciência. Matriz, critério para a escolha de problemas.
Para Kuhn, o termo Paradigma possui vários aspectos, entre os quais:
2- Lógicos: modo como estão organizadas as principais equações e os principais pensamentos. Ex.: para Newton f=m.a, para Einstein e=m.c2.
3- Metafísicos: modo como se concebe a realidade. Para Newton a natureza é um conjunto de partículas sob a acção de forças.
4- Axiológicos: Um paradigma consiste numa interpretação que revela simplicidade e coerência na forma como as teorias resumem a realidade. Aliás, estas características contribuem para a sua aceitabilidade por parte dos cientistas.
5- Aspectos técnicos: O paradigma também reflecte modelos de resolução dos problemas e promulga técnicas e métodos adequados de investigação. Além disso, o paradigma transporta consigo determinados aspectos conceptuais muito próprios. Ex. A teoria da evolução das espécies de Darwin possui uma manta de conceitos muito específicos.
6- Aspectos sociológicos: O paradigma reflecte um acordo consensual por parte da comunidade científica. Para tal, o defensor do paradigma terá de apresentar uma proposta, uma visão do mundo, de forma convincente e persuasiva.

B. No capítulo 2 de A estrutura das revoluções científicas, Kuhn afirma que há "três focos normais para investigação científica dos fatos". Explicar em que consistem esses três focos.

1- Determinação do facto científico. Determinar quais os factos significativos num determinado âmbito paradigmático.
2- Harmonização dos factos com a teoria. Estabelecer a concordância dos factos com a teoria
3- Articulação da teoria. Garantir o rigor, a precisão da teoria.

C. A partir da leitura do cap. 3, explique o que Kuhn quis dizer ao afirmar que nos períodos de ciência normal a prática científica está primariamente voltada para a resolução de quebra-cabeças.
1. Quando partimos para a resolução de algum jogo partimos com a convicção que tem uma solução.
2. Testam a engenhosidade dos cientistas.
a) Leis, conceitos e teorias.
b) Instrumentos e métodos de uso.
3. Qualquer quebra-cabeças obedece a regras.
4. Também a ciência quando parte para um problema encara-o como enigma que, à partida tem solução dentro das regras do paradigma.
5. Qualquer problema que não seja explicado pelo paradigma é suspenso até melhor oportunidade.

D. Capítulo 5 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar por que as descobertas científicas não são apenas produtos de observações muito precisas. O que mais está envolvido nas descobertas, além das observações?

1. Anomalia: reconhecimento de que, de alguma forma, a natureza violou as expetativas paradigmáticas que governam a ciência normal.
2. Trabalho do paradigma no sentido da anomalia se converter no esperado.
3. Como exemplifica a nomeação de Priestley ao gás que pretensamente isolou: «óxido nitroso» e «ar desflogistizado»

E. Capítulo 6 de A estrutura das Revoluções Científicas. Explique por que o surgimento de uma nova teoria tipicamente só surge após um fracasso na atividade normal de resolução de problemas.
Ser admiravelmente bem-sucedida não significa ser totalmente bem-sucedida.
1. Fatores internos: Insegurança dos cientistas; fracasso do paradigma em resolver os seus próprios problemas.
2. Factores externos: Pressões socioculturais e religiosas.

F. Capítulo 7 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar a diferença entre entre anomalias e contra-exemplos e a ideia de incomensurabilidade.

G. Capítulo 8 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar por que "a escolha entre paradigmas competidores coloca frequentemente questões que não podem ser resolvidas pelos critérios da ciência normal".

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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Paul Feyerabend




Filósofo austríaco, controverso, conhecido por sair pela janela depois das aulas e arrancar com a sua potente moto, escreveu obras importantes ao nível da epistemologia: Adeus à Razão, Contra o Método, Ciência numa Sociedade Livre, são obras marcantes e simultaneamente sintomáticas do seu projeto epistemológico.
Contraindução, a ideia de progresso científico, a incomensurabilidade das teorias e a condição de coerência são os conceitos mais pertinentes.
Com recurso permanente à história da ciência, F. tenta provar a máxima de que as alterações científicas se deram por um processo anárquico. «Vale tudo» é a nova metodologia, provando que a história nas suas mais variadas vertentes, é multiforme e variada, estando repleta de acidentes e justaposição de eventos, tal como acontece no desenvolvimento considerado em sentido lato. Percorrendo a história civilizacional da Europa, e recorrendo a Mill, F considera que a civilização europeia alcançou certo patamar de desenvolvimento, não por encerrar uma qualquer excelência superior, mas por promover uma grande variedade de caminhos (Adeus à Razão, pág 45). Mesmo havendo aqui ou ali alguma intolerância e tentativa de imposição das ideias, raramente tal aconteceu. O anarquismo metodológico favorece a concretização do progresso em qualquer dos sentidos. Grande parte do mundo é desconhecida pelo que se deve estar aberto a alternativas. O que se deve exigir de um cientista? Polivalência e Versatilidade.
Existem inúmeras provas de que assim deve ser, ou pelo menos de que assim é. F. , ao contrário de Popper, não quer demonstrar que a ciência deva ser de tal forma, mas que os procedimentos são de certa forma. No desenvolvimento da criança a actividade lúdica inicial é um requisito básico para a compreensão. O adestramento torna a pessoa obediente mesmo perante algumas perplexidades. A uniformidade debilita o poder crítico.
Contraindução
O cientista terá, assim, uma única via: aceitar todas as outras. Numa crítica à ciência, F advoga a persecução de metodologias diferenciadas e pluralistas. Habitualmente o trabalho científico é conservador, mono dinâmico e visa essencialmente tornar forte o argumento fraco. Como? Optando por metodologias unívocas e impostas. Ora, este procedimento é contrário àquilo que F pretende porque pressupõe uma atitude ingénua face ao homem e à circunstância social.
O método tradicional empírico-indutivo baseia o progresso de uma teoria a partir do confronto com factos, indo ao encontro da noção que F introduz de Condição de Coerência (Contra o Método, pág 47 e ss).
Não existem factos brutos. Os factos científicos puros são reflexo de uma aceitação dogmática dos procedimentos metodológicos impostos e impedem o alcance da melhoria dos conhecimentos. Baseando-se mais uma vez em Mill (Adeus à Razão, 46 e ss), F. apresenta um conjunto de razões para a defesa da diversidade metodológica:
1.      Uma perspetiva rejeitada pode conter alguma verdade.
2.      Somos falíveis quando às nossas ideias.
3.      Uma verdade incontestada será considerada um preconceito.
4.      A sua adesão é meramente formal, a não ser que seja confrontada.
5.      Proibir o confronto com outras teorias significa contrariar a própria essência da ciência.

Não aceitar isto é não aceitar a ciência. Contudo, uma pequena ressalva. F. não abdica da necessária seriedade científica nem mesmo do seu método recorrente – o empírico indutivo. A sua crítica é estabelecida pela forma como este método é aplicado e pela maneira como se estabelece a demarcação entre ciência e não ciência. Em conformidade com isto, a objeção de F. aplica-se àquilo que as teorias consideram racional num dado momento. Recorrendo a Galileu, F afirma que as suas teorias foram consideradas irracionais relativamente ao status quo científico dominado pelo paradigma aristotélico. Sendo assim, parece mais vantajoso aceitar as teorias que à partida são consideradas irracionais a aceitar simplesmente os facto que podem ou não sustentar a teoria existente. Por este motivo, F afasta-se de Popper. Enquanto Popper afirma a necessidade de testes, F afirma a importância de aceitação das teorias diferentes e consideradas irracionais para a época.

A ideia de incomensurabilidade das teorias, a par de Kuhn, também é advogada por F. A ideia base é a constatação de que não existem factos brutos e que, por isso, a observação depende da teoria. Não existem observações puras. Assim como na mecânica clássica todos os objetos físicos têm forma, massa e volume, na teoria da relatividade o que existe são relações entre objetos de acordo com um certo ponto de referência. Como consequência, qualquer enunciado observacional que se refira a objetos físicos dentro da mecânica clássica terá um significado diferente para um enunciado observacional aparentemente similar na teoria da relatividade. Não existe um processo cumulativo, antes se assiste a uma rotura. Da mesma forma, a teoria ondulatória só ocorreu porque alguns decidiram não se deixar limitar por certas regras. Sem o mau uso da linguagem não pode haver progresso nem descoberta.  

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O conhecimento a priori e a posteriori. As proposições analíticas e sintéticos

Retirada daqui: http://canaldoempreendedor.com.br/coaching/em-vendas-conhecimento-e-poder-veja-dicas-para-manter-a-equipe-atualizada/

 

O que é o conhecimento a priori?

Antes de mais convém refletir sobre o conhecimento sintético e analítico. Comummente, o primeiro corresponde a todas as proposições que aumentam o conhecimento. Por exemplo, quando afirmo que a água ferve a 100º estou a construir um conhecimento sintético porque 100º não está incluído na noção da fervura. Por isso, não é um conhecimento necessário e universal. Da mesma forma, a afirmação de que Ronaldo é mais pesado do que Messi tem carácter sintético assim como a proposição «a neve é branca» . A analiticidade das proposições é encontrada quando o predicado de um juízo está já contido no próprio sujeito, isto é, o predicado é «achado» pela simples análise do sujeito. Encontramos exemplos como «os homens calvos são homens» ou «um bom poeta é um poeta» que demonstram a analiticidade. Estes exemplos são triviais assim como é trivial a sua aplicação na argumentação. Como diz Russell, a não ser que queiramos construir algum sofisma, estas proposição nunca deviam ser enunciadas porque não acrescentam algo ao conhecimento.

É muito comum apresentarmos o conhecimento a priori como o que está antes da experiência, considerando a experiência como o contacto dos sentidos com a realidade exterior. Ora, a conotação que lhe vamos atribuir é kantiana. O seu significado corresponde ao que é independente da experiência e só pode ser alcançado pelo pensamento. É fácil ver que há ciências aprioristas. A matemática ou a lógica possuem estas características. Quando afirmo 2+2=4, recorri ao pensamento para alcançar o resultado. Contudo, os mais atentos interrogar-se-ão se realmente não há recurso à experiência na medida em que necessito de concretizar o cálculo. Como Russell mostra («Como o conhecimento a priori é possível » in Problemas da Filosofia), recorrendo a Kant, 7 e 5 devem ser colocados juntos para somar 12; a ideia de 12 não está contida em 7 e 5. Significa isto que a matemática pura é idêntica, no que aos seus métodos diz respeito, às ciência naturais? Ao contrário destas, em que é necessário um grande número de testes para confirmar uma teoria, na matemática basta sabermos uma vez que 2+2=4. Daí que a matemática não seja a posteriori mas a priori.

A posteriori significa o que é oriundo da experiência. Quando afirmo que a água é H2O ou que limão é ácido, tenho de recorrer à experiência.

Finalmente, qual a diferença entre sintético e analítico e «a priori» e «a posteriori»? A primeira é uma distinção semântica acerca de tipos de frases, a segunda é uma distinção epistemológica acerca de tipos de modos de conhecer  (http://criticanarede.com/docs/etlf_analitico.pdf).