sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Paul Feyerabend




Filósofo austríaco, controverso, conhecido por sair pela janela depois das aulas e arrancar com a sua potente moto, escreveu obras importantes ao nível da epistemologia: Adeus à Razão, Contra o Método, Ciência numa Sociedade Livre, são obras marcantes e simultaneamente sintomáticas do seu projeto epistemológico.
Contraindução, a ideia de progresso científico, a incomensurabilidade das teorias e a condição de coerência são os conceitos mais pertinentes.
Com recurso permanente à história da ciência, F. tenta provar a máxima de que as alterações científicas se deram por um processo anárquico. «Vale tudo» é a nova metodologia, provando que a história nas suas mais variadas vertentes, é multiforme e variada, estando repleta de acidentes e justaposição de eventos, tal como acontece no desenvolvimento considerado em sentido lato. Percorrendo a história civilizacional da Europa, e recorrendo a Mill, F considera que a civilização europeia alcançou certo patamar de desenvolvimento, não por encerrar uma qualquer excelência superior, mas por promover uma grande variedade de caminhos (Adeus à Razão, pág 45). Mesmo havendo aqui ou ali alguma intolerância e tentativa de imposição das ideias, raramente tal aconteceu. O anarquismo metodológico favorece a concretização do progresso em qualquer dos sentidos. Grande parte do mundo é desconhecida pelo que se deve estar aberto a alternativas. O que se deve exigir de um cientista? Polivalência e Versatilidade.
Existem inúmeras provas de que assim deve ser, ou pelo menos de que assim é. F. , ao contrário de Popper, não quer demonstrar que a ciência deva ser de tal forma, mas que os procedimentos são de certa forma. No desenvolvimento da criança a actividade lúdica inicial é um requisito básico para a compreensão. O adestramento torna a pessoa obediente mesmo perante algumas perplexidades. A uniformidade debilita o poder crítico.
Contraindução
O cientista terá, assim, uma única via: aceitar todas as outras. Numa crítica à ciência, F advoga a persecução de metodologias diferenciadas e pluralistas. Habitualmente o trabalho científico é conservador, mono dinâmico e visa essencialmente tornar forte o argumento fraco. Como? Optando por metodologias unívocas e impostas. Ora, este procedimento é contrário àquilo que F pretende porque pressupõe uma atitude ingénua face ao homem e à circunstância social.
O método tradicional empírico-indutivo baseia o progresso de uma teoria a partir do confronto com factos, indo ao encontro da noção que F introduz de Condição de Coerência (Contra o Método, pág 47 e ss).
Não existem factos brutos. Os factos científicos puros são reflexo de uma aceitação dogmática dos procedimentos metodológicos impostos e impedem o alcance da melhoria dos conhecimentos. Baseando-se mais uma vez em Mill (Adeus à Razão, 46 e ss), F. apresenta um conjunto de razões para a defesa da diversidade metodológica:
1.      Uma perspetiva rejeitada pode conter alguma verdade.
2.      Somos falíveis quando às nossas ideias.
3.      Uma verdade incontestada será considerada um preconceito.
4.      A sua adesão é meramente formal, a não ser que seja confrontada.
5.      Proibir o confronto com outras teorias significa contrariar a própria essência da ciência.

Não aceitar isto é não aceitar a ciência. Contudo, uma pequena ressalva. F. não abdica da necessária seriedade científica nem mesmo do seu método recorrente – o empírico indutivo. A sua crítica é estabelecida pela forma como este método é aplicado e pela maneira como se estabelece a demarcação entre ciência e não ciência. Em conformidade com isto, a objeção de F. aplica-se àquilo que as teorias consideram racional num dado momento. Recorrendo a Galileu, F afirma que as suas teorias foram consideradas irracionais relativamente ao status quo científico dominado pelo paradigma aristotélico. Sendo assim, parece mais vantajoso aceitar as teorias que à partida são consideradas irracionais a aceitar simplesmente os facto que podem ou não sustentar a teoria existente. Por este motivo, F afasta-se de Popper. Enquanto Popper afirma a necessidade de testes, F afirma a importância de aceitação das teorias diferentes e consideradas irracionais para a época.

A ideia de incomensurabilidade das teorias, a par de Kuhn, também é advogada por F. A ideia base é a constatação de que não existem factos brutos e que, por isso, a observação depende da teoria. Não existem observações puras. Assim como na mecânica clássica todos os objetos físicos têm forma, massa e volume, na teoria da relatividade o que existe são relações entre objetos de acordo com um certo ponto de referência. Como consequência, qualquer enunciado observacional que se refira a objetos físicos dentro da mecânica clássica terá um significado diferente para um enunciado observacional aparentemente similar na teoria da relatividade. Não existe um processo cumulativo, antes se assiste a uma rotura. Da mesma forma, a teoria ondulatória só ocorreu porque alguns decidiram não se deixar limitar por certas regras. Sem o mau uso da linguagem não pode haver progresso nem descoberta.