O truísmo mais evidente é o relativo ao juízo de gosto que consiste no acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto.
O que desencadeia esse juízo de gosto?
1. Objectivismo
Tese: Dizemos que um objecto é belo em virtude das suas propriedades intrínsecas e independentemente do que sentimos quando o observamos. Dizer «a catedral de Milão é bela» é diferente de dizer «gosto da catedral de Milão»
Argumento: Se não houvesse características objectivas não era possível qualquer consenso alargado acerca da beleza ou fealdade de um objecto.
2. O Subjectivismo
Tese: Dizemos que um objecto é belo em virtude do que sentimos quando o observamos. O juízo estético depende exclusivamente do sujeito.
Argumento: A beleza decorre de um juízo de gosto, isto é, depende dos sentimentos de prazer do observador. Dizer «x é belo» é o mesmo que dizer «gosto de x».
Possibilidades de resolver esta aparente dicotomia:
Segundo David Hume existe um padrão de gosto: qualquer pessoa atenta sabe distinguir uma obra de Eça de Queirós de uma obra de José Saramago.
• Assim, de acordo com Hume, dizer que «x é belo» é o mesmo que dizer que «gosto de X» porque está de acordo com o padrão de gosto.
• O padrão de gosto é formado ao longo do tempo. Há características que são naturalmente percebidas como agradáveis.
• Para compreender o padrão de gosto é necessário treino. A sensibilidade pelo belo varia consoante a delicadeza com que certos objectos são apreciados. O estético é indissociável do padrão de gosto e este é algo que se mantém ao longo do tempo. Tal com há odores a que o nosso olfacto reage naturalmente mal, Há características dos objectos que são naturalmente percebidas como agradáveis.
Remetemos para Kant um lugar de realce. Na sua Crítica da Faculdade de Julgar afirma que quando digo «este objecto é belo», esta apreciação não diz respeito a inclinações ou a desejos. Quando assim afirmo estou a ter um juízo de gosto subjectivo e, simultaneamente, universal. Não podemos dizer por que razão algo é belo, mas também não podemos dizer que as nossas avaliações sejam meras expressões de gosto.
• A questão é, pois, quando temos uma experiência estética? Como se caracteriza?
• Perante uma apreciação do estético existem duas posições: contemplativa e desinteressada.
• Mesmo esta contemplação é relativa ao objecto que está diante de nós. De qualquer forma, a experiência estética é contemplativa porque nos entregamos à percepção e isso dá--nos prazer. É desinteressada porque o prazer esgota-se nessa situação.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
sábado, 28 de maio de 2011
O Tema da estética: O Belo III
Estes truísmos foram baseados na obra de Roger Scrupton, Beleza, Guerra e paz
De entre estes discutíveis truísmos, destaca-se a questão do juízo de valor. Por juízo de Gosto entende-se o acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto. Confere, portanto, uma legitimidade ao truísmo que nega a presença de apreciação da beleza em segunda mão. Não há forma de possuirmos uma sensação de beleza nem exercitarmos essa sensação através dos outros. Ela exige a presença in loco. Mas uma questão pode ser levantada: o que confere razão de ser ao Juízo? Actualmente, é de senso comum usarmos o subjectivismo como algo de inevitável, por isso dizemos sempre que os gostos não se discutem. A formulação do subjectivismo é «gosto de x», logo «x é belo». Contudo, quando afirmamos que algo é belo estamos implicitamente a querer partilhar algo e, acima de tudo, a querer que a nossa ideia encontre comunhão com os outro. Com o princípio subjectivo tal não é possível.
De entre estes discutíveis truísmos, destaca-se a questão do juízo de valor. Por juízo de Gosto entende-se o acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto. Confere, portanto, uma legitimidade ao truísmo que nega a presença de apreciação da beleza em segunda mão. Não há forma de possuirmos uma sensação de beleza nem exercitarmos essa sensação através dos outros. Ela exige a presença in loco. Mas uma questão pode ser levantada: o que confere razão de ser ao Juízo? Actualmente, é de senso comum usarmos o subjectivismo como algo de inevitável, por isso dizemos sempre que os gostos não se discutem. A formulação do subjectivismo é «gosto de x», logo «x é belo». Contudo, quando afirmamos que algo é belo estamos implicitamente a querer partilhar algo e, acima de tudo, a querer que a nossa ideia encontre comunhão com os outro. Com o princípio subjectivo tal não é possível.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
O Tema da Estética: O Belo II

Pela análise ao anterior texto, foi fácil constatar que Platão coloca a Beleza ao mesmo nível que a Verdade, o Bem ou a Justiça. Todos estes conceitos justificam o que existe de forma participada no mundo sensível. Por isso, Platão diz que a Verdade, o Bem e a Beleza são Ideias e, por isso, correspondem à verdadeira realidade. Recuperando a análise feita ao texto da Alegoria da Caverna, as Ideias são a causa das aparências. Assim, o Belo é a causa do belo, o Bem do bem e assim sucessivamente.
Contudo, aqui podemos levantar várias questões. De entre elas, qual a consequência de colocar o valor da Beleza como idêntico ao valor da Verdade, não em termos de importância - consideramos que a nossa existência exige também a Beleza, além da Verdade - mas relativamente ao seu carácter gnoseológico. Sabemos que o alcance platónico da Ideia consiste na defesa da universalidade, daí a presença de um forte investimento por parte de Platão a favor de um intelectualismo, i. é, o exercício da racionalidade permite um maior acesso às Ideias. Contudo, se um cientista me disser que uma determinada fórmula química é constituída por certos elementos, não discuto a veracidade porque há sempre maneira de confirmar. Porém, quando afirmo que algo é belo não consigo evitar interrogações, admirações, e discussões. Porque será? Possivelmente devido ao espírito subversivo da beleza. Vamos então tentar vislumbrar a sua substância começando por evidenciar alguns dos seus truísmos.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
O Tema da Estética: O Belo I
[...]Sócrates – Por Hera! Belas palavras, Hípias, no caso de virmos a vencer o homem. Creio que não haverá inconveniente em imitá-lo, para com tuas respostas, preparar a minha argumentação e, assim, exercitar-me contigo do melhor modo possível. Tenho alguma prática de formular objeções. Se não te fizer diferença, eu mesmo as apresentarei, para ficar mais firme na matéria.
Hípias – Podes formulá-las. Como já te disse, a questão é muito simples; vou deixar-te em condições de responder a perguntas muito mais difíceis, de forma que ninguém te possa contradizer.
Sócrates – Oh! Isso é que é falar bem! Então, principiemos. Já que o mandas, vou colocar-me no lugar do outro, da melhor forma que puder, e procurar interrogar-te. Se lhe repetisses aquele discurso a que te referiste há pouco, a respeito das belas ocupações, logo que acabasses de falar, antes de mais nada, como é seu costume, ele interrogar-te-ia sobre o belo, mais ou menos nestes termos: Forasteiro de Élide, não é pela justiça que os justos são justos? – Responde, Hípias, como se fosse ele que te interrogasse.
Hípias – Diria que é pela justiça.
Sócrates – Então, a justiça é algo real?
Hípias – Perfeitamente.
Sócrates – Assim, pela sabedoria é que os sábios são sábios, como é também pelo bem que todos os bens são bens.
Hípias – Como não?
Sócrates – Logo, todas essas coisas são reais, sem que possam absolutamente deixar de sê-lo.
Hípias – São reais, sem dúvida.
Sócrates – E as coisas belas, não o são apenas por efeito da beleza?
Hípias – Sim, da beleza.
Sócrates – Beleza essa que também existe?
Hípias – Sem dúvida. Mas, afinal, que é o que ele quer?
Sócrates – Então, explica-me, forasteiro, voltaria a falar: que é esse belo?
Hípias – Como assim, Sócrates? O autor dessa pergunta deseja saber o que é belo?
Sócrates – Penso que não, Hípias; porém o que seja o belo.
Hípias – E em que consiste a diferença?
Sócrates – Achas que não há diferença?
Hípias – Nenhuma.
Sócrates – É certeza saberes melhor. Mas presta atenção, amigo. Ele não te perguntou o que é belo, porém o que é o belo.
Hípias – Compreendo, bom homem, e vou responder a ele o que seja o belo, de forma que não possa refutar-me. Fica, então, sabendo, Sócrates, para dizer-te toda a verdade, que o belo é uma bela jovem.
Sócrates – Ótimo, Hípias, pelo cão! Respondeste admiravelmente. Sendo assim, no caso de eu lhe falar dessa maneira, terei dado resposta certa à pergunta apresentada, sem que ninguém me possa contraditar?
Hípias – Como poderiam contraditar-te, Sócrates, se não há quem não pense desse modo e todos os que te ouvirem confirmarão que a resposta está certa?
Sócrates – Pois que seja. Mas permite, Hípias, que chame a mim o que acabas de dizer. Meu interlocutor argumentaria mais ou menos nestes termos: Vamos, Sócrates, responde-me: Se existe o belo em si, todas as coisas que denominas belas serão belas por esse fato? Eu, de meu lado, diria que uma bela jovem é bela por efeito do que deixa belas todas as coisas.[...]
Adaptado a partir daqui: http://magis.colegiomedianeira.g12.br/pdf/antologia_completa.pdf
Dicas para a abordagem ao texto:
1. Formule o problema levantado pelo texto.
2. Apresente a estrutura do argumento.
3. Considere possíveis objecções às teses apresentadas.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O véu da ignorância. Rawls II
O problema é assim claro: como escolher justamente os princípios da Posição Original? Diz Rawls que o véu de ignorância significa que os intervenientes «não sabem como é que as alternativas vão afectar a sua situação concreta e são obrigados a avaliar os princípios apenas com base em considerações gerais» (Uma Teoria da Justiça, 121). Será importante que ninguém conheça o seu lugar na sociedade, a sua classe ou estatuto, assim como os seus talentos naturais. A única coisa que conhecem é o facto da sociedade estar submetida à justiça. Estes pressupostos garantem a regra maximin. Num conjunto de alternativas os sujeitos na posição original têm tendência de jogar pelo seguro, na medida em que estão sob a influência do véu, escolhendo os princípios que melhor previnam situações futuras. Numa situação em que há possibilidade de fazer a distribuição de bens de forma muito desigual (por exemplo, distribui-se 10 bolos por três pessoas, ficando um com 2, outro com 6 e outro com dois) ou de forma pouco desigual (3 para um, 3 para outro e 4 para outro), a tendência razoável (ver a diferença entre Racionalidade e Razoabilidade na obra de Rawls Liberalismo Político) seria escolher a segunda hipótese, pelo menos por mera precaução.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Justiça Distributiva - Rawls I
A Justiça Distributiva é um ramo da Justiça que se preocupa com a forma como a riqueza e as obrigações são distribuídas pelos cidadãos de um Estado ou de uma Comunidade. Nesta noção, inscrevem-se as diferenças actuais entre a designada esquerda, com o enfoque dado à importância da acção do Estado, e direita, remetendo mais a sua acção para o domínio do privado.
Na década de 70 do século passado, John Rawls (1921-2002) publicou uma obra que obteve muitas reacções mas que marcou de forma visível os espectros da Filosofia e até da praxis políticas: Uma Teoria da Justiça. Obra densa e de aturada leitura, Uma Teoria da Justiça revela um Rawls que promove, inspirado no contratualismo clássico, a ideia de Posição Original. Neste situação, quase idêntica ao contrato, Rawls sustenta a necessidade da escolha de princípios basilares de qualquer sociedade. Os princípios por ele escolhidos são:
• Princípio da liberdade igual: A sociedade deve assegurar a máxima liberdade para cada pessoa compatível com uma liberdade igual para todos os outros.
• Princípio da oportunidade justa: As desigualdades económicas e sociais devem estar ligadas a postos e posições acessíveis a todos em condições de justa igualdade de oportunidades.
• Princípio da diferença: A sociedade deve promover a distribuição igual da riqueza, excepto se a existência de desigualdades económicas e sociais gerar o maior benefício para os menos favorecidos.
(cont.)
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A Justiça
A Justiça é a essência das instituições sociais assim como a verdade é a virtude do conhecimento. Numa sociedade justa a igualdade de liberdades e direitos entre os cidadãos é considerada como definitiva (Rawls, Teoria Da Justiça, 27). Por esse motivo, qualquer política que se queira introduzir num Estado só é efectivada a partir de uma concepção de justiça.
A noção comum de justiça corresponde à ideia de atribuir aos outros aquilo que lhes é devido. Obviamente falando de justiça distributiva.
Quais as várias concepções:
1. A justiça como igualdade:
Os igualitaristas defendem que numa sociedade justa cada pessoa deve receber benefícios iguais. Ao longo da história muitas teorizações tentaram materializar-se, com os respectivos insucessos. Tal não significa que o igualitarismo não possui as suas virtudes, mas encontra-se limitado pela constatação da existência de óbvias diferenças de características, méritos e desempenhos entre os seres humanos.
2. A Justiça de um ponto de vista utilitário.
Se, como foi abordado no tema da ética, o Utilitarismo visa uma maximização da felicidade, então será fácil constatar que na justiça o Utilitarismo pretende o interesse geral da sociedade. Ora, estas ideias, apesar de encontrar em muitos estados um terreno fértil para a sua aplicação, possuem também muitos críticos, na medida em que, segundo estes, o Principio Utilitarista pode promover injustiças gritantes porque é reconhecida a existência de direitos inalienáveis no ser humano que em caso algum devam ser violados.
3. A justiça e a igualdade de oportunidades.
Ideia actualmente muito em voga, a igualdade de oportunidades corresponde à meritocracia associada ao pleno direito das pessoas possuírem iguais oportunidades de alcançarem determinado tipos de actividades e posições sociais. Parece uma ideia atraente mas que, por vezes, nos faz pensar naqueles que não são capazes de ter mérito na medida em que nem todas as pessoas, quer por razões naturais, quer por razões sociais, não possuem as mesmas oportunidades. As pessoas são muito ou pouco inteligentes, muito ou pouco bonitas; da mesma forma, nasce-se numa circunstância favorável ou desfavorável em termos culturais e económicos. Por estas razões John Rawls esboçou uma possível solução na obra Uma Teoria da Justiça.
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