terça-feira, 5 de julho de 2011

Expressão Filosófica das Viagens da Minha Terra - Parte II

A Filosofia romântica

Resolução das antinomias:
Infinito
Eu
Ideal
Deus
Finito
Não eu
Real
Mundo

- O finito não existe fora do infinito e o infinito não existe fora do finito
- Esta ideia desemboca no inevitável Panteísmo e Imanentismo.
- Redução de todo o poder espiritual à sensibilidade (Condillac). A diversidade dos poderes espirituais depende da diversidade dos poderes sensíveis.
Fichte elaborou uma concepção do «eu» própria do idealismo alemão. O Eu constitui a realidade primordial. É o agente e o produto da acção. Por isso a sua actividade é pura e infinita. Os românticos  apoderaram-se desta concepção fitchiana do Eu e identificaram-no com o génio individual e transferiram para este a dinâmica daquele [1]. O mundo romântico está aberto ao mistério e ao sobrenatual. O verdadeiro mistério exige que o homem desvie o olhar de tudo quanto o rodeia e desça dentro de si próprio. É para o interior que se dirige o caminho misterioso.
Johann Fichte (1762-1814)
No contexto das ciências, a filosofia ocupa o lugar da fundamentação. É a base de todas as outras ciências. No contexto da filosofia tem que se procurar a proposição mais básica, isto é, o fundamento da experiência.
A Experiência é entendida de duas formas: como liberdade e como necessidade. A primeira depende do sujeito (crio uma montanha de ouro, decido ir a Bruxelas…) – inteligência (idealismo); a segunda não depende do sujeito (quando passeio por uma rua, o que vejo, o que oiço, não dependo de mim) – coisa em si (materialismo, determinismo).
Qual é, então, o fundamento da filosofia? Ao procurarmos pela crença básica, encontramos sempre um «eu». Quando digo: «pensem na parede», posso transitar indefinidamente desta forma: «pensem em quem pensou na parede». Por mais que tentamos objectivar um «eu» resta sempre um outro «eu», um «eu» que transcende qualquer pergunta e funciona como condição da unidade da consciência.
Esta descoberta do «eu puro» é puramente intuitiva e é apropriada por alguém que esteja preparado para tal. Não é puro misticismo por que pressupõe uma reflexão aturada. «Não posso mover nem um dedo da mão sem a intuição da minha autoconsciência e dos seus actos. Isto é o fundamento da vida.
O «eu puro» é um «eu transcendental». Não é um solipsismo, é supraindividual.[2]
Fichte esclarece a unidade absoluta como aquilo que é puramente encerrado em si, como a imanência, como o verdadeiro e o imutável. Trata-se de reconduzir o diverso a essa unidade e, inversamente, compreender todo o diverso a partir dessa unidade. Para a Doutrina da Ciência, isto significa: ela compreende unidade e diversidade, fundamento e fundado, princípio e principiado, reciprocamente, na sua relação necessária.
O princípio da filosofia, o seu verdadeiro ponto de partida, é o absoluto. Ele é unidade e verdade. Este absoluto é aquele acerca do qual, frisa Fichte, não está em questão «como se denomina esse ser, mas como se apreende e mantém interiormente. Denomine-se, ainda assim, [esse ser como] eu.»


[1] Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 8ª edição, Almedina, Coimbra 1988, pág. 543 e ss.
[2] Ideias baseadas em Frederick Coplestone, Historia de la Filosofia, vol. VII, Ariel, Barcelona, 1989.

sábado, 2 de julho de 2011

Expressão Filosófica das Viagens da Minha Terra - Parte I

Romantismo como filosofia [1]


·         Significado do iluminismo  

v  O classicismo e a literatura aristocrática deixaram-se modelar por uma apatia de privilégio, perdendo uma boa dose de questionação do mundo. O Iluminismo representou um profunda mudança cultural. Imprimiu uma mudança na ideia de Estado e na arte
v  O Iluminismo trouxe um abalo a esta ordem de coisas. A modernização do Estado foi o efeito de um amplo desenvolvimento da filosofia e da ciência.
v  A mudança promoveu uma nova perspectiva face à decadência e ao analfabetismo, situação muito do agrado da intelectualidade do antigo regime.
v  A promoção de condições de acesso à cultura, padrões estéticos e de gosto foram profundamente alteradas.
v  Urgência na atribuição de liberdades fundamentais de expressão, religião e de justiça social.

·         Reacção ao iluminismo: Predilecção pelo Volkgeist

v  Com  a actividade laboriosa da burguesia, as literaturas autóctones foram ganhando novo vigor.
v  A hegemonia da razão para solucionar todos os problemas e males sociais começava a ser posta em causa.

·         Exaltação do poder da imaginação, do eu criador e o papel do sentimento e da intuição.

v  Papel de Rosseau. Sem negar a importância da razão, Rosseau limitava-a a uma das duas componentes fundamentais. A outra seria o coração. O indivíduo sensível e imaginativo na presença do mundo dado na sua imediaticidade natural e exponânea, tornou-se no bom selvagem, promovendo a imaginação.
v  O génio artísico ocupa o lugar do filósofo.
v  Procura individual do seu próprio ideal moral em detrimento das leis universais ditadas pela razão prática impessoal.
v  Concepção orgânica da natureza que vibra em uníssono com o espírito, revestida da beleza e mistério deste.
v  Sentimento e nostalgia do infinito materializado numa concepção unitária do homem e da natureza.
v  Substituição das noções de tempo estático, de determinismo absoluto, de fé e imutabilidade do gosto e do belo pelas de devir hitórico, relatividade e descrença no catolicismo.
v  Identidade entre finito e infinito.


[1] Ver Alberto Carvalho, «apresentação crítica…», in Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, colecção textos literários, Editorial Comunicação, Lisboa, 1987, pp 17 e ss.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

«As Botas» de Van Gogh - Texto de M. Heidegger




A partir da pintura de Van Gogh, não podemos sequer estabelecer onde se encontram estes sapatos. Em torno deste par de sapatos de camponês, não há nada em que integrem, a que possam pertencer, só um espaço indefinido. Nem sequer a eles estão presos torrões de terra do caminho do campo, algo que pudesse denunciar a sua utilização. Um par de sapatos de camponês e nada mais. E todavia...
Na escura abertura do interior dos sapatos, fita-nos a dificuldade e o cansaço dos passos do trabalhador. Na gravidade rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se sentem até longe, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual sopra um vento agreste. No couro, está a fertilidade e humidade do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do caminho do campo, pela noite que cai. No apetrecho para calçar impera o apelo calado da terra, a sua muda oferta de trigo amadurece e a sua inexplicável recusa na desolada improdutividade do campo no inverno. Por este apetrecho passa o calado temor pela segurança do pão, a silenciosa alegria de vencer uma vez mais a miséria, a angústia do nascimento iminente e o tremor ante a ameaça da morte. Este apetrecho pertence à terra e está abrigado no mundo da camponesa. É a partir desta abrigada pertença que o produto surge para o seu repousar-em-si-mesmo.
[...] Mas será que o que queremos dizer é que o quadro de Van Gogh copia um par de sapatos de camponês que realmente está aí, e é uma obra que consegue fazê-lo? De modo nenhum. Portanto, na obra, não é de uma reprodução do ente singular que de cada vez está aí presente que se trata, mas sim da essência geral das coisas.

M. Heidegger, A Origem da Obra de Arte, Ed. 70, Lisboa, pp. 27 – 28

O Tema da Estética: O Belo IV

O truísmo mais evidente é o relativo ao juízo de gosto que consiste no acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto.

O que desencadeia esse juízo de gosto?
1. Objectivismo
Tese: Dizemos que um objecto é belo em virtude das suas propriedades intrínsecas e independentemente do que sentimos quando o observamos. Dizer «a catedral de Milão é bela» é diferente de dizer «gosto da catedral de Milão»
Argumento: Se não houvesse características objectivas não era possível qualquer consenso alargado acerca da beleza ou fealdade de um objecto.
2. O Subjectivismo
Tese: Dizemos que um objecto é belo em virtude do que sentimos quando o observamos. O juízo estético depende exclusivamente do sujeito.
Argumento: A beleza decorre de um juízo de gosto, isto é, depende dos sentimentos de prazer do observador. Dizer «x é belo» é o mesmo que dizer «gosto de x».

Possibilidades de resolver esta aparente dicotomia:
Segundo David Hume existe um padrão de gosto: qualquer pessoa atenta sabe distinguir uma obra de Eça de Queirós de uma obra de José Saramago.
• Assim, de acordo com Hume, dizer que «x é belo» é o mesmo que dizer que «gosto de X» porque está de acordo com o padrão de gosto.
• O padrão de gosto é formado ao longo do tempo. Há características que são naturalmente percebidas como agradáveis.
• Para compreender o padrão de gosto é necessário treino. A sensibilidade pelo belo varia consoante a delicadeza com que certos objectos são apreciados. O estético é indissociável do padrão de gosto e este é algo que se mantém ao longo do tempo. Tal com há odores a que o nosso olfacto reage naturalmente mal, Há características dos objectos que são naturalmente percebidas como agradáveis.
Remetemos para Kant um lugar de realce. Na sua Crítica da Faculdade de Julgar afirma que quando digo «este objecto é belo», esta apreciação não diz respeito a inclinações ou a desejos. Quando assim afirmo estou a ter um juízo de gosto subjectivo e, simultaneamente, universal. Não podemos dizer por que razão algo é belo, mas também não podemos dizer que as nossas avaliações sejam meras expressões de gosto.
• A questão é, pois, quando temos uma experiência estética? Como se caracteriza?
• Perante uma apreciação do estético existem duas posições: contemplativa e desinteressada.
• Mesmo esta contemplação é relativa ao objecto que está diante de nós. De qualquer forma, a experiência estética é contemplativa porque nos entregamos à percepção e isso dá--nos prazer. É desinteressada porque o prazer esgota-se nessa situação.

sábado, 28 de maio de 2011

O Tema da estética: O Belo III

Estes truísmos foram baseados na obra de Roger Scrupton, Beleza, Guerra e paz

De entre estes discutíveis truísmos, destaca-se a questão do juízo de valor. Por juízo de Gosto entende-se o acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto. Confere, portanto, uma legitimidade ao truísmo que nega a presença de apreciação da beleza em segunda mão. Não há forma de possuirmos uma sensação de beleza nem exercitarmos essa sensação através dos outros. Ela exige a presença in loco. Mas uma questão pode ser levantada: o que confere razão de ser ao Juízo? Actualmente, é de senso comum usarmos o subjectivismo como algo de inevitável, por isso dizemos sempre que os gostos não se discutem. A formulação do subjectivismo é «gosto de x», logo «x é belo». Contudo, quando afirmamos que algo é belo estamos implicitamente a querer partilhar algo e, acima de tudo, a querer que a nossa ideia encontre comunhão com os outro. Com o princípio subjectivo tal não é possível.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Tema da Estética: O Belo II


Pela análise ao anterior texto, foi fácil constatar que Platão coloca a Beleza ao mesmo nível que a Verdade, o Bem ou a Justiça. Todos estes conceitos justificam o que existe de forma participada no mundo sensível. Por isso, Platão diz que a Verdade, o Bem e a Beleza são Ideias e, por isso, correspondem à verdadeira realidade. Recuperando a análise feita ao texto da Alegoria da Caverna, as Ideias são a causa das aparências. Assim, o Belo é a causa do belo, o Bem do bem e assim sucessivamente.
Contudo, aqui podemos levantar várias questões. De entre elas, qual a consequência de colocar o valor da Beleza como idêntico ao valor da Verdade, não em termos de importância - consideramos que a nossa existência exige também a Beleza, além da Verdade - mas relativamente ao seu carácter gnoseológico. Sabemos que o alcance platónico da Ideia consiste na defesa da universalidade, daí a presença de um forte investimento por parte de Platão a favor de um intelectualismo, i. é, o exercício da racionalidade permite um maior acesso às Ideias. Contudo, se um cientista me disser que uma determinada fórmula química é constituída por certos elementos, não discuto a veracidade porque há sempre maneira de confirmar. Porém, quando afirmo que algo é belo não consigo evitar interrogações, admirações, e discussões. Porque será? Possivelmente devido ao espírito subversivo da beleza. Vamos então tentar vislumbrar a sua substância começando por evidenciar alguns dos seus truísmos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Tema da Estética: O Belo I

[...]Sócrates – Por Hera! Belas palavras, Hípias, no caso de virmos a vencer o homem. Creio que não haverá inconveniente em imitá-lo, para com tuas respostas, preparar a minha argumentação e, assim, exercitar-me contigo do melhor modo possível. Tenho alguma prática de formular objeções. Se não te fizer diferença, eu mesmo as apresentarei, para ficar mais firme na matéria.
Hípias  –  Podes formulá-las. Como já te disse, a questão é muito simples; vou deixar-te em condições de responder a perguntas muito mais difíceis, de forma que ninguém te possa contradizer.
Sócrates – Oh! Isso é que é falar bem! Então, principiemos. Já que o mandas, vou colocar-me no lugar do outro, da melhor forma que puder, e procurar interrogar-te. Se lhe repetisses aquele discurso a que te referiste há pouco, a respeito das belas ocupações, logo que acabasses de falar, antes de mais nada, como é seu costume, ele interrogar-te-ia sobre o belo, mais ou menos nestes termos: Forasteiro de Élide, não é pela justiça que os justos são justos? – Responde, Hípias, como se fosse ele que te interrogasse.
Hípias – Diria que é pela justiça.
Sócrates – Então, a justiça é algo real?
Hípias – Perfeitamente.
Sócrates – Assim, pela sabedoria é que os sábios são sábios, como é também pelo bem que todos os bens são bens.
Hípias – Como não?
Sócrates – Logo, todas essas coisas são reais, sem que possam absolutamente deixar de sê-lo.
Hípias – São reais, sem dúvida.
Sócrates – E as coisas belas, não o são apenas por efeito da beleza?
Hípias – Sim, da beleza.
Sócrates – Beleza essa que também existe?
Hípias – Sem dúvida. Mas, afinal, que é o que ele quer?
Sócrates – Então, explica-me, forasteiro, voltaria a falar: que é esse belo?
Hípias  – Como assim, Sócrates? O autor dessa pergunta deseja saber o que é belo?
Sócrates – Penso que não, Hípias; porém o que seja o belo.
Hípias – E em que consiste a diferença?
Sócrates – Achas que não há diferença?
Hípias – Nenhuma.
Sócrates – É certeza saberes melhor. Mas presta atenção, amigo. Ele não te perguntou o que é belo, porém o que é o belo.
Hípias – Compreendo, bom homem, e vou responder a ele o que seja o belo, de forma que não possa refutar-me. Fica, então, sabendo, Sócrates, para dizer-te toda a verdade, que o belo é uma bela jovem.
Sócrates – Ótimo, Hípias, pelo cão! Respondeste admiravelmente. Sendo assim, no caso de eu lhe falar dessa maneira, terei dado resposta certa à pergunta apresentada, sem que ninguém me possa contraditar?
Hípias – Como poderiam contraditar-te, Sócrates, se não há quem não pense desse modo e todos os que te ouvirem confirmarão que a resposta está certa?
Sócrates – Pois que seja. Mas permite, Hípias, que chame a mim o que acabas de dizer. Meu interlocutor argumentaria mais ou menos nestes termos: Vamos, Sócrates, responde-me: Se existe o belo em si, todas as coisas que denominas belas serão belas por esse fato? Eu, de meu lado, diria que uma bela jovem é bela por efeito do que deixa belas todas as coisas.[...]


Dicas para a abordagem ao texto:
1. Formule o problema levantado pelo texto.
2. Apresente a estrutura do argumento.
3. Considere possíveis objecções às teses apresentadas.