domingo, 25 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
A filosofia como actividade exige de nós uma postura de abertura face àquilo que nos é apresentado. Por esse motivo, ao aprendiz de filósofo incumbe-lhe descortinar caminhos. Para tal, é necessário ser corajoso. Sim, corajoso.
Na medida em que a curiosidade é-nos conatural, todos nós possuímos uma aptidão para questionarmos a realidade, seja ela qual for. Por que razão não o fazemos? Essencialmente por receio. Deste modo, é importante que os estudantes de filosofia comecem a pensar de modo mais assertivo. Depois de ultrapassar esta primeira fase, descobre-se respostas, emergem novas questões. É um exercício tipo quebra cabeças. O mais difícil é começar, depois nada nos demove no prazer da autodescoberta.
Face a um desenho animado como Os Três Porquinhos, é evidente a necessidade de interrogar as várias cenas com que somos presenteados: o que representa o Lobo? Qual a relação entre as características de cada casa e as personalidades dos porquinhos? O que representam as casas?
Estamos entrar no jogo:
O Lobo é mau? Ou o Lobo está em nós? Não será o lobo a expressão dos nossos medos?
Por que razão os porquinhos têm diferentes protagonismos? haverá alguma conexão entre o prazer, o divertimento e a realidade; entre o princípio do prazer, do imediato e o princípio da realidade? Esta realidade é-nos imposta ou corresponde ao modo como cada um de nós a encara?
Introdução à Lógica
O que é um argumento válido? O que é um argumento?
No nosso quotidiano utilizamos muitas vezes a expressão «isso não tem lógica» para designar algum pensamento que, à partida, entra em litígio com aquilo que consideramos correto em termos de pensamento: não posso afirmar e simultaneamente negar esse algo. Portanto, estamos atentos ao modo como os nossos interlocutores executam a nobre tarefa de raciocinar, utilizando um conjunto de frases que se interligam no sentido de atingir uma conclusão:
Um sistema político é importante para a sobrevivência da humanidade. A democracia é um sistema político. logo, é importante para a sobrevivência da humanidade.
Este argumento possui um conjunto de frases que são anteriores à conclusão «logo, é importante para a sobrevivência da humanidade». Essas frases designam-se de premissas: «Um sistema político é importante para a sobrevivência da humanidade» e «A democracia é um sistema político».
Exercícios:
Identifique as premissas e as conclusões dos seguintes argumentos:
1. A água é H2O e o mar é constituído por água. Logo o mar é H2O.
2. A natureza é bela porque alguém a criou e a beleza é um acto de criação.
3. A pena de morte é ilegítima, pois não se deve causar a morte a um ser humano em circunstância alguma.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
Eça e o Riso
« Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso, como o desejo de reinar e os trabalhos sangrentos em que se envolveu para o satisfazer mataram o sono de Lady MacBeth. Tanto complicámos a nossa existência social, que a Acção, no meio dela, pelo esforço prodigioso que reclama, se tornou uma dor grande: - e tanto complicámos a nossa vida moral, para a fazer mais consciente, que o pensamento, no meio dela, pela confusão em que se debate, se tornou uma dor maior. O homem de acção e de pensamento, hoje, está implacavelmente votado à melancolia.
Este pobre homem de acção, que todas as manhãs, ao acordar, sente dentro em si acordar também o amargo cuidado do pão a adquirir, da situação social a manter, da concorrência a repelir, da «íngreme escada a trepar», poderá porventura afrontar o Sol com singela alegria? Não. Entre ele e o Sol está o negro cuidado, que lhe estende uma sombra na face, lhe mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso. Por outro lado o homem de pensamento que constantemente, pelo fatalismo da educação científica e crítica, busca as realidades através das aparências, e que no céu só vê uma complicada combinação de gases, e que na alma só descobre uma grosseira função de órgãos, e que sabe que porção de fosfato de cal entra em toda a lágrima, e que diante de dois olhos resplandecentes de amor pensa nos dois buracos da caveira que estão por trás, e que a todo o sacrifício heróico penetra logo o motivo egoísta, e que caminha sempre à procura da lei estável e eterna, e que a cada passo perde um sonho, e que por fim não sabe para onde vai, e nem mesmo sabe quem é - não pode ser senão um triste!
Desde que homem de acção e homem de pensamento são paralelamente tristes - o mundo, que é sua obra, só pode mostrar tristeza. Tristeza na sua literatura, tristeza na sua sociedade, tristeza nas suas festas, tristeza nos fatos negros de que se veste... Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente, quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente.
Não há que duvidar! Voltaram os tempo de Albert Durer! Outra vez o famoso moço de asas potentes, no meio dos inumeráveis instrumentos das ciências e das artes, que atulham o seu laboratório, e diante das obras colossais, que com eles construiu, sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor nem mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro.
Pobre moço, que, de muito trabalhar sobre o universo e sobre ti próprio, perdeste a simplicidade e com ela o riso, queres um humilde conselho? Abandona o teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a terra, e reconquistarás, com a saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir.
Mas como pode escutar estes conselhos de sapiência um desgraçado que tem, nos poucos anos que ainda restam de século, de descobrir o problema da comunicação interastral, e de assentar sobre bases seguras todas as ciências psíquicas?
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado. »
Desde que homem de acção e homem de pensamento são paralelamente tristes - o mundo, que é sua obra, só pode mostrar tristeza. Tristeza na sua literatura, tristeza na sua sociedade, tristeza nas suas festas, tristeza nos fatos negros de que se veste... Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente, quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente.
Não há que duvidar! Voltaram os tempo de Albert Durer! Outra vez o famoso moço de asas potentes, no meio dos inumeráveis instrumentos das ciências e das artes, que atulham o seu laboratório, e diante das obras colossais, que com eles construiu, sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor nem mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro.
Pobre moço, que, de muito trabalhar sobre o universo e sobre ti próprio, perdeste a simplicidade e com ela o riso, queres um humilde conselho? Abandona o teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a terra, e reconquistarás, com a saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir.
Mas como pode escutar estes conselhos de sapiência um desgraçado que tem, nos poucos anos que ainda restam de século, de descobrir o problema da comunicação interastral, e de assentar sobre bases seguras todas as ciências psíquicas?
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado. »
Eça de Queiroz, «A Decadência do Riso», Gazeta de Notícias (1891)' do Riso», in Gazeta de Notícias (1891)'
sábado, 16 de julho de 2011
Depois do romantismo: A questão do «Bom Senso e do Bom Gosto» - Questão Coimbrã

A questão do «Bom Senso e do Bom Gosto» - Questão Coimbrã
- Caracterizou-se por uma guerra de folhetos e folhetins entre Antero e António Feliciano de Castilho e António Pinheiro Chagas. Com um fundo predominantemente ideológico, esta questão promoveu ventos de mudança estéticos. Possivelmente influenciado pelo palavroso romantismo piegas, o realismo começa por caracterizar-se por uma defesa pela linguagem simples. Se o realismo está presente em Eça, já Antero envereda por um transcendentalismo. É aliás este aspecto de Antero que os ultra-românticos acusam.
Os argumentos ideológicos
Os grandes aspectos da intervenção intelectual de Coimbra ficaram-se mais a dever a factores ideológicos e políticos do que por factores estéticos, a saber:
Significado da Geração de 70
- Projecto de síntese e de mudança nacional e europeu;
- Discussão despreconceituosa, racional;
- Abertura a novas experiências estéticas;
- Regeneração total do país (económica, cultural e política); «reaportuguesamento»
Causas formais:
Geração de Coimbra contra o:
· Romantismo Piegas;
· Classicismo Retórico (verdade, Belo, Bem) – (filosofia da Regeneração);
· Descrença na possibilidade de se alcançarem as reformas sociais e políticas através das vias institucionais;
· Constatação da crescente institucionalização e burocratização do artista através da atribuição de cargos públicos[1];
Causas materiais:
· Revolução abortada das patuleias (1846-1847). Guerra civil ganha pela facção de D. Maria II (cartistas). Os cartistas tornam-se posteriormente no Partido Regenerador, tendo-se afirmado como um partido conservador que defendia a monarquia constitucional.
· O pré-industrialismo das políticas de Fontes Pereira de Melo – da política do transporte - e as reacções de D. Pedro V a este estado de pragmatismo burguês e o consequente parasitismo económico.
· A falência cultural portuguesa: a sociedade portuguesa caracterizava-se por uma imitação grotesca da cultura europeia. O tédio tornou-se um sentimento generalizado da sociedade portuguesa e invadia o espírito de tudo e de todos.
Causas intelectuais:
Face a este quadro, a descrença na transformação do país levou muitos intelectuais a vincularem-se a correntes do pensamento que se difundiam por toda a Europa.
· Numa primeira fase, simpatia com o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier, Proudhom.
Pierre-joseph Proudhom (1809-1865)
ü A contradição das grandes tendências económicas:
1. O sistema da propriedade destruidora da igualdade (capitalismo) – TESE.
2. O sistema comunista destruidor da independência – ANTÍTESE.
3. O Mutualismo (anarquismo): sociedade de produtores unidos mediante contratos livres – SÍNTESE.
ü «A propriedade é um roubo». Significa que uma propriedade não é legítima por que quem a detém é quem não a trabalha. A sua posse, pelo contrário, o direito à sua posse está consignada na natureza humana. «Posse» significa usar a terra, os utensílios.
ü A manutenção da independência e da dignidade humana decorre desta posse.
ü A imperfeição da Revolução Francesa é consequência da aplicação dos princípios à política e não à economia. Esses princípios devem ser alargados à economia. Essa é a tarefa da revolução.
ü A manutenção de uma sociedade industrial coerente e estável na forma de um sistema trabalhado por associações de produtores, com contratos em vez de leis e companhias industriais em vez de exércitos, torna o epíteto de utópico bem aplicado a Proudhom.
ü Para tal seria necessário superar a profunda divisão entre classes cultas ou incultas e facilitar o uso proveitoso do ócio.
· Defesa de um ponto de vista evolutivo contra a degenerescência romântica de António Feliciano Castilho.
· Difusão das primeiras ideia republicanas (fundação do jornal A República em 1948).
· Numa segunda fase, idealização de uma aristocracia iluminada, contraponto a um socialismo utópico. Coincide com a fase da ironia queirosiana. Este período corresponde à máxima «vencidos da vida».
Como se caracteriza?
· Idealismo céptico. Cepticismo fin-de-siècle do pós-romantismo europeu; idealistas por que convictos do poder absoluto das ideias face ao mundo.
· Sentido revolucionário do tempo: acto de esquecimento do passado e promoção da ideia de fim da história.
· Movimento niilista: esquece a própria memória, negação do Estado como memória da nação, negação da igreja como negação da alma, o partido como memória de classe.
· Renovação nos métodos da interpretação histórico – literária;
· Germanização coimbrã como resposta à constatação de carências educativas;
· Instauração de um espírito crítico;
· Para Antero a tragédia (futuro) é a marca, o trágico (passado) predomina em Oliveira Martins e o cómico (presente) em Eça.[2]
O que pretendiam?
· Reforma mental;
· Corresponder às necessidades morais e intelectuais do público (revolução vintista);
· Acertar o passo com a Europa, no sentido civilizacional;
· Novos modelos doutrinários;
· Independência intelectual;
· Reformas das Universidades.
· Repensar e pôr em questão toda a cultura portuguesa desde as suas origens, fixando-se no ponto mais elevado e também mais complexo da história de Portugal, isto é, o período das descobertas.
· Promover activamente uma transformação profunda na ideóloga política e na estrutura social portuguesas, preparando a revolução republicana de 1910.
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