quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Argumentação e Retórica

Retórica e lógica informal

Por “retórica” pode-se entender um conjunto de regras que têm por objectivo tornar mais clara a expressão dos argumentos; este sentido de “retórica” coincide com o que hoje se chama “lógica informal”. Mas por “retórica” pode entender-se outra coisa: a arte de persuadir independentemente da validade dos argumentos.
O papel da lógica informal pode ser ilustrado com o seguinte argumento:
1) Se desejarmos apurar as capacidades cognitivas dos alunos, temos de os ensinar a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
2) Se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, o objectivo do seu ensino será apurar as capacidades cognitivas dos alunos.
C) Logo, se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, temos de ensinar os alunos a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
Do ponto de vista da lógica formal é indiferente apresentar o argumento por esta ordem, ou inverter a ordem e começar por 2 em vez de 1. No entanto, o argumento é mais facilmente compreensível se começarmos por 2. A lógica informal aconselha a começar por 2 (cf. Weston, Anthony, A Arte de Argumentar, Gradiva, Lisboa, 1996, págs. 21-23).
Contudo, a retórica aconselha a não mudar a ordem, precisamente pela mesma razão. Enquanto a lógica informal é uma actividade que tem como objectivo o argumento válido persuasivo, a retórica tem por objectivo único persuadir o interlocutor — e é mais fácil persuadir o interlocutor quando ele não consegue avaliar o argumento em causa por ficar confundido, uma vez que assim também não consegue refutá-lo. Enquanto a lógica informal tem por objectivo oferecer a possibilidade do pensamento crítico, a retórica tem por objectivo silenciar o pensamento crítico e persuadir a outra pessoa, independentemente da validade dos argumentos apresentados.
Nenhuma retórica pode transformar um argumento mau num bom argumento; o que a retórica pode fazer, no máximo, é disfarçá-lo; mas não ajuda a apresentar argumentos válidos nem a denunciar os inválidos. É a lógica informal que ajuda a fazer ambas as coisas.
Tanto a lógica informal como a retórica têm em conta o auditório, mas de modos distintos. Do ponto de vista da retórica qualquer argumento que convença um auditório é bom, pois a persuasão é a única medida da argumentação. Mas é evidente que as piores falácias podem persuadir muitos auditórios, e nem por isso deixarão de ser falácias, ainda que sejam falácias persuasivas (aliás, por definição, uma falácia é um argumento inválido que é persuasivo porque parece válido, e portanto a retórica é incapaz de explicar o próprio conceito de falácia). Para a lógica informal, pelo contrário, o auditório é importante mas não determina só por si a validade ou invalidade da argumentação. O auditório é importante na lógica informal porque, por exemplo, ao argumentar a favor de uma dada ideia temos de escolher premissas que consideremos verdadeiras e que sejam aceitáveis para o nosso auditório; caso contrário estaremos a falar apenas para quem já aceita as nossas ideias. É por isso que o seguinte argumento é mau:
O aborto não deve ser permitido porque é o assassínio de inocentes.
Este argumento é mau porque quem não aceita a conclusão (“O aborto não deve ser permitido”) também não aceita a premissa (“O aborto é o assassínio de inocentes”). A argumentação criativa é a arte de mostrar que há argumentos válidos a favor de P que partem de premissas que quem é contra P está disposto a aceitar. E esta arte não se adquire com o estudo da retórica, mas sim com o estudo da lógica informal.

Exercícios

  1. “A retórica complementa a lógica e ultrapassa os seus limites.” Concorda? Porquê?
  2. Qual é o objecto de estudo da lógica informal?
  3. Qual é o objecto de estudo da retórica?
Desidério Murcho
Extraído de O Lugar da Lógica na Filosofia, de Desidério Murcho (Plátano, 2003

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Conhecimento Filosófico.

O conhecimento filosófico

Quando pretendemos escrever sobre um qualquer assunto é conveniente definir muito bem os termos com que faremos o nosso texto.

Conhecimento pode ser definido como uma crença, entendida como algo em que nós acreditamos; verdadeira, porque tem que corresponder à realidade e, obviamente, justificada. Não vale dizermos seja o que for sem saber justificar o que foi dito. Nesta medida, o conhecimento refere-se sempre a algo e visa compreendê-lo. Para tal faz-se um esforço para organizar as ideias, no sentido de lhes fornecer uma ordem. Quando nos deparamos com uma situação nova, somos levados a procurar uma ideia, um sentido àquilo para nos sentirmos mais seguros. Só que, por vezes, a realidade não é assim tão fácil. Há assuntos que merecem mais a nossa atenção do que outros; assim como há assuntos que são mais facilmente resolúveis por determinadas ciências. Um cientista procura, através de um método e instrumentos próprios, conhecer a realidade, dando-lhe um certo significado. Por isso, cria fórmulas químicas, modelos matemáticos, classificações de plantas e animais… Atenção, não quer isto dizer que a filosofia não necessita da ciência. Aliás, é imprescindível o recurso à ciência para fazer filosofia.
Vamos fazer a ligação com a filosofia
A filosofia não envereda por estes caminhos. Os seus recursos técnicos não são idênticos às ditas ciências naturais. Na filosofia não se usam microscópios (embora, por vezes, seja necessário um olhar de lince), muito menos provetas. Na filosofia recorre-se à argumentação. O raciocínio é uma predisposição que possuímos que nos leva a pensar sistematicamente com o objetivo de qualquer pessoa reconhecer como correto. A razão é, deste modo, um recurso importante porque nos propõe utilizar um método que seja imune ao individual e social. A lógica tem aqui um papel preponderante.
Agora uma ligação com os argumentos
A correção dos nossos argumentos é uma exigência social. Daí que a filosofia recorra de forma assídua à lógica. Esta mostra-nos quando um argumento é ou não válido, tem ou não sentido, o que não impede que façamos as devidas correções às premissas que sustentam a conclusão. Isso mesmo, um argumento é um encadeamento de ideias em que a última é sempre expressão das anteriores.
Não parece muito viável que executamos qualquer ponto de vista a partir de uma forma desconexa, pois não permitiria que a racionalidade do outro fosse respeitada. Também ninguém quereria ficar nesta situação porque todos nós temos um conjunto de teses sobre a realidade que gostamos de partilhar. As teses não são mais do que ideias que formulamos acerca dos problemas; proposições, verdadeiras ou falsas, sobre os mais variados assuntos. Mas sejamos sérios. Estas ideias não se podem ficar por meras opiniões, elas devem ser sustentadas por argumentos que enalteçam a clareza e a racionalidade. Os problemas da vida assim o exigem. (aproveito para falar de problemas).
Problemas há muitos. É comum identificarmos um problema com uma situação que apela à nossa intervenção e compreensão, no sentido de ser clarificado para nosso benefício. Mas atenção, a filosofia não se debruça sobre o problema, por exemplo, da transmissão de certas doenças; os problemas da filosofia correspondem às designadas crenças básicas, crenças que servem de apoio a todas as outras. Se estou a tentar conhecer algo é porque resolvi uma questão que lhe serve de referência: o que é o conhecimento? Da mesma forma, se for crente é porque confio na crença básica do crente: Deus existe. Se ouço uma música e dela usufruir, encontro-me em condições de descrever uma crença básica: o que é arte? Quando me dirijo a uma urna no sentido de votar, encontro neste ato uma pergunta básica: o que é a política? Numa situação de comportamento moral sei, ou devia saber, responder à pergunta: o que é o bem? O que é o mal?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ensaio argumentativo - Casamento Homossexual


1. Formulação do problema
Deve ser autorizado o casamento entre casais homossexuais?
2. Objectivo do Ensaio
Para vivermos em sociedade é importante o respeito pela diferença, mesmo ao nível sexual. Face ao crescente número de casais homossexuais que pretendem casar-se, torna-se necessário construirmos argumentos sólidos sobre esta questão. É um assunto que merece a máxima atenção pelo facto de originar exclusões sociais. 
3. Posições existentes. Argumentos prós e contras.
Contra:
Bíblia: «Não podes deitar-te com homem como com uma mulher; é uma abominação.»
A homossexualidade é contrária aos valores da família. A família tem o intuito de procriação.
É contrário à natureza.
A Homossexualidade é perversa e torna as pessoas perniciosas.

Prós:
O acto de amor não é diferente entre heterossexuais e homossexuais.
As pessoa têm todo o direito de procurar a sua própria felicidade.
A orientação sexual não é escolhida, é herdada.

4. A tese que se pretende defende
Sou a favor do casamento homossexual.

5.  Argumentos a favor da tese

A felicidade deve estar ao alcance de qualquer um, independentemente da orientação sexual.
Se a minha felicidade passar por amar alguém do mesmo sexo, então devo-me casar ou juntar-me a essa pessoa.
Desde que haja respeito na forma como demonstram o amor, não se vê problema na possibilidade de existir casamento.
O conceito de família deve mudar por que a procriação poderá não ser a única finalidade da sexualidade. Há comportamentos sexuais que não visam a procriação.


6. Objeções aos argumentos apresentados
O conceito de família não é algo que possa mudar.
A constituição de uma família tem como objectivo a perpetuação da espécie.
Ao permitir-se o casamento homossexual muitos outros casos irão aparecer.
Vai haver uma degradação gradual das sociedades.


7. Resposta às objeções
O casamento religioso é um valor sagrado, portanto deve estar imune a essas situações.
O conceito de família de facto mudou. Além de haver inúmeros casais que se juntam sem o objectivo de procriação.
Há cada vez mais famílias monoparentais o que reforça a ideia de mudança do paradigma de família.
A homossexualidade sempre existiu, o que sempre lhe esteve associada foi a vergonha e o medo.
A degradação social, ao longo da história, teve causas exteriores ao fenómeno sexual.
Admitimos que o casamento não seja religioso. Mas como simples contrato civil, parece não haver entraves.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

República III


Característica do republicanismo português

1º Pressuposto
COMO CONCILIAR A FILOSOFIA ORIGINALMENTE ANTI-LIBERAL E ANTI-DEMOCRÁTICA DO POSITIVISMO COM UM MOVIMENTO BURGUÊS QUE REIVINDICAVA A TRADIÇÃO DEMO-LIBERAL E A OBRA DA REVOLUÇÃO FRANCESA?
Uma solução foi construir um quadro centrado no positivismo francês juntamente com Mill, Spencer, Darwin…

- A solução foi a colagem ao heterodoxismo positivista de Littré.

Razões:
- A religiosidade difundida por Comte e Laffite para o positivismo. Para os liberais portugueses isso serviria para a afirmação de uma nova forma de religiosidade o que, em vez de servir de contestação à herança católica, degeneraria noutra forma religiosa que deixaria atrasar mais uns séculos o desenvolvimento da humanidade.
- De acordo com os estados positivistas, o clero estava situado no patamar teológico o que estaria sujeito à refutação face à dinâmica científica do estado positivo. Assim, o agnosticismo positivista legitimava a acção do movimento republicano contra o espírito teológico. O “porquê” seria substituído pelo “como”. O ponto de vista gnoseológico aliou-se ao ponto de vista ontológico na definição do ideário positivista.
- Contudo, o edifício demo-liberal exigia a afirmação do eu individual, fonte de liberdade. Pelo contrário, Comte rejeitava as esferas individuais. Ora, se o projecto positivista pressupunha negar o iluminismo e o consequente individualismo racionalista, por considerá-los posicionados no patamar metafísico da evolução, então os republicanos tinham um dilema: por um lado por uma questão de coerência doutrinária, tinham de comungar das ideias positivistas, por outro lado a sua base reivindicativa era demo-liberal e, por isso, afirmava a liberdade individual e o comércio livre
Positivismo dava garantias de lutar contra a ortodoxia eclesiástica e de afirmar a ideia de progresso.
A democracia demo-liberal dava garantias de lutar contra a monarquia.
É esta a posição de Teófilo Braga. Afirma a liberdade política, civil e filosófica contra a exclusividade positivista dada a esta última.
Ou seja, a prioridade da ideia republicana seria a afirmação do movimento político, focando a sua prioridade intelectual no problema do REGIME
Porquê? Porque a supremacia da ideia filosófica protagonizada por Comte não respondia aos desejos destes teorizadores, a saber, a mudança de regime. A função política seria determinante porque no organismo social todas as outras funções se subordinam a essa.
Que solução?
Conjugando o EVOLUCIONISMO DE SPENCER COM BIOLOGISMO SOCIOLÓGICO E O POSITIVISMO HETERODOXO.
EVOLUCIONSMO DE SPENCER: retêm a ideia da evolução de uma primitiva homogeneidade para uma actual heterogeneidade, provocando uma diferenciação dos órgãos sociais, embora relacionáveis entre si (casando este evolucionismo com o positivismo de Littré)
BIOLOGISMO SOCIOLÓGICO: a normalização social e adaptação ao meio justificavam-se pelas teses darwinistas. O todo social seria tão só motivador da evolução do TODO social (casando este biologismo com o positivismo).

Evolução ou Revolução?

Este foi outro dilema dos republicanos. Querendo protagonizar uma mudança radical no regime político e sabendo que sempre houve revoluções, queriam também não ir contra os ideários positivistas da ordem e do progresso. Assim, no caso de Teófilo, afirmava que a revolução inscrevia-se numa evolução geral, com a diferença de a revolução ser uma característica humana, ao passo que a evolução seria uma característica da permanente actualização do corpo natural. Estava assim alcançada a solução para o dilema inicial. Existem revoluções, mas estas, com o avanço do conhecimento científico, seriam facilmente esperadas e, por isso, evitáveis. Mais uma vez mostrava-se que a república seria o desenlace inevitável do progresso humano. Seria a cura do mal social inerente à existência de um regime que não dava resposta aos novos ventos de mudança. A sociedade era comparada a um organismo que, com as suas manifestações face às doenças, promoviam reacções para se encontrar uma fase de equilíbrio orgânico.

Economia

Legitimado pela pequena burguesia, o movimento republicano pugnava pela introdução de um sistema económico de base liberal. O equilíbrio social, referido atrás, encontrava guarida na promoção da livre iniciativa segundo a lei da concorrência vital. O equilíbrio social resultaria da luta entre os interesses privados. Esta era a opinião liberal contra a monarquia constitucional que defendia o grande capital.

O Iluminismo e o Positivismo heterodoxo

Segundo Fernando Catroga “enquanto a concepção do conhecimento racionalista se baseava num modelo platónico-matemático e apontava para uma atitude crítica e criadora face aos dados do senso comum, o positivismo, voltado para a fundamentação do conhecimento social, situava-se nos limites de um racionalismo naturalista e moderado, culminando, ao nível da sociologia, na apologética de um empirismo reprodutor dos interesses de classe que sobredeterminavam a sua leitura da realidade social.”[1] O racionalismo setecentista seria produto de uma dinâmica metafísica em luta contra o medievalismo que, devido ao facto de se enquadrar numa perspectiva especulativa, urgia superar. Se o objectivo era enaltecido, os meios utilizados eram repugnados face aos desenvolvimentos científicos de oitocentos. Apesar disto, o positivismo heterodoxo retomava a ilusão iluminista do nascimento de uma nova ordem política.

A moral republicana

Comte propunha uma ética altruísta que rejeitava qualquer fundamentação teológica, de acordo com um deus transcendente revelador da verdade, e de uma metafísica, que propunha a autonomia do indivíduo como fundamento ético. Para Comte a sociedade seria uma entidade ôntica auto-suficiente e o indivíduo uma simples abstracção. A comunidade dos eus diluía-se na autoridade social.
Os republicanos não seguiram estes preceitos, porquê?
*      A ética do positivismo tornava pouco própria para uma fundamentação de uma moral individual e social. Comte tinha de ser corrigido por uma moral mais individualista
Qual o recurso encontrado?
*      No utilitarismo inglês com reposições darwinistas e spencerianas.

O utilitarismo

Bentham e depois Mill advogavam o princípio do máximo prazer para o maior número de pessoas possível. Este Hedonismo pressupunha um egoísmo ingénito que levaria a uma harmonia com os seus semelhantes. A filantropia utilitária estaria inscrita nos indivíduos como seres naturalmente sociais. No entanto, esta filantropia não possuía um estatuto inata, devia ser cultivada a partir de uma reorganização do sistema educativo e das instituições políticas.

Darwin

Defendeu a existência de um instinto social como fundamento da conservação. O altruísmo dentro da espécie revela a verdadeira dimensão do filantropismo. A busca do prazer e a superação da dor seriam os alicerces da conduta humana e animal.

Teófilo Braga

v  O instinto da conservação radicava no egoísmo (utilitarismo);
v  No indivíduo encontra-se o instinto da solidariedade da espécie (Darwin);
v  Este altruísmo de espécie é consequência de uma evolução que resultou numa harmonia entre o egoísmo e o interesse da sociedade (positivismo heterodoxo).
v  A sistematização destes preceitos exigia um sistema educativo que revelasse as máximas produzidas pelos povos e uma coordenação correcta entre a vontade e a inteligência;
v  Elaboração de uma paideia que promovesse os ideais republicanos;
v  Com isto conseguir-se-ia uma liberdade individual e de iniciativa, uma sociedade laica e democrática e o abandono de todas as formas políticas degeneradoras.

Conceitos fundamentais: lei dos três estados, evolucionismo, ordem e progresso, positivismo heterodoxo, cientismo biológico-social, república demo-liberal



[1] Fernando Catroga, op cit, pp 7-8