terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Condições necessárias e suficientes para produzir conhecimento


Conhecimento e Crença


Por crença entendemos qualquer tipo de convicção. Não é concebível elaborar conhecimento sem que se acredite no que se afirma. Daí que a crença seja condição necessária[1]para o conhecimento.
Por isso considera-se contraditória a seguinte afirmação:

Sei que  a terra é redonda, mas não acredito nisso.
                               

A crença é uma condição necessária na medida em que é um aspecto fundamental para que haja conhecimento, mas não é suficiente porque, além da crença, há outros factores que, em conjunto, são condições necessárias e suficientes.

Conhecimento e Verdade

Como não podemos ficar pelas crenças, temos de procurar outras condições que completem essa crença. Assim, posso acrescentar que a crença, para produzir conhecimento, tem de ser verdadeira. Quando digo que Maria está na praia tenho de ter um conhecimento factivo[2] de que a Maria está na praia. Se simplesmente julgar, erradamente, que Maria está na praia estou a ter uma crença falsa. Portanto, sem verdade não há conhecimento.

Ex: O Ambrósio sabe que o céu é castanho. Esta proposição viola a facticidade do conhecimento e, por isso, é falsa

Mas será a crença verdadeira condição necessária e suficiente para o conhecimento?

Mais uma vez só podemos afirmar que é uma condição necessária. Porquê?

Há situações em que tenho uma pretensa crença verdadeira, mas que só por acaso é verdadeira. Se se perguntar ao aluno Luisão qual a raiz quadrada de 4 e ele responder, sem convicção e certeza, que é 2, estamos perante um acaso. Logo, é necessário algo mais para produzirmos conhecimento. Uma crença verdadeira é quando julgamos que a crença julga a realidade tal como ela é, mas só por si não garante que se alcance o conhecimento

Conhecimento e Justificação

Resulta do que ficou dito que o conhecimento não pode ser consequência do acaso. A crença verdadeira é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento se processar. Por isso, devemos pressupor que é necessário algo mais; é fundamental, tal como refere Platão em Teeteto, numa justificação.

A justificação é uma condição necessária para o conhecimento. Apresentar as razões para confirmar a veracidade de uma crença é indispensável para produzir conhecimento. Justificar é fazer uma ligação efectiva entre a crença e a realidade.


A justificação pode revestir-se de duas formas:

a)     através de um argumento. Os argumentos justificam afirmações a partir de outras;
b)     Através dos sentidos, ou seja, directamente (se Ambrósio visse a meia cheia de presentes).

Conclusão:


Conhecimento será, então, uma crença verdadeira justificada.

S conhece P se e só se: 1) S acredita em P.
                                      2) P é verdadeira.
                                      3) S tem uma justificação para acreditar em P.



[1] Condição necessária: viver em Portugal é condição necessária para viver em Bragança.

Condição suficiente: viver em Portugal é condição suficiente para viver na Europa.

[2] Dizer que é factivo significa que o conhecimento não pode ser falso

sábado, 3 de dezembro de 2011

Lógica, lógica informal, demonstração, demonstração dialética, retórica e persuasão




1.       No estudo que efetuámos sobre a lógica vimos como se estruturam os argumentos dedutivos válidos. Partimos do pressuposto que, se as premissas forem verdadeiras a conclusão também será verdadeira. Assim, num argumento válido as premissas sustentam a conclusão. Esta característica da validade é atribuída a todos os argumentos. Contudo, há argumentos que utilizam demonstrações dialéticas, pois utilizam premissas passíveis ou não de concordância. Portanto, aquela distinção entre demonstração e argumentação é mais formal do que real, pois a argumentação também se estabelece a partir da lógica formal, nomeadamente pela avaliação da validade.

Demonstração
Demonstração dialética
Se 2+2=4, então 3+1=4. 2+2=4, logo 3+1=4
Todos os seres têm direitos. O javali é um ser, logo o javali tem direitos

É fácil constatar que a diferença fundamental entre a demonstração e a demonstração dialética reside no facto das premissas da demonstração dialética serem discutíveis, ao passo que as premissas da demonstração são verdades necessárias e estabelecida, embora ambos possam ser avaliados através da lógica.
2.       Em virtude do seu carácter discutível, a demonstração dialética procura, além da validade, a persuasão, isto é, procura a melhor forma de construir argumentos bons. Para tal, recorre a outros instrumentos, como a retórica. Um bom argumento procura convencer, auxiliando-se na retórica no sentido de encontrar vias que tornem possível um maior esclarecimento e uma forma de comunicação mais eficaz. No decurso de uma discussão, resultado da presença de um argumento dialético, os interlocutores utilizam outros argumentos como a indução, a analogia ou os argumentos de autoridade. Evidentemente que os devem utilizar da melhor forma para não caírem em falácias, como pode servir de exemplo a generalização precipitada. Para tal, o contexto, o conhecimento do auditório e outras variáveis devem ser devidamente ponderadas.
3.   Porém não devemos esquecer a distinção entre persuasão e manipulação. Um dos ingredientes fundamentais de qualquer argumentação reside no respeito que qualquer pessoa merece. Para tal, a nossa intenção deve persuadir, atribuindo ao nosso interlocutor o respeito devido, apontando as razões e dando-lhe liberdade de pensamento, não o condicionando na sua racionalidade. A manipulação não permite que tal aconteça. Ela sugere, não demonstra, procurando jogar com as emoções e com o subconsciente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Argumentação e Retórica

Retórica e lógica informal

Por “retórica” pode-se entender um conjunto de regras que têm por objectivo tornar mais clara a expressão dos argumentos; este sentido de “retórica” coincide com o que hoje se chama “lógica informal”. Mas por “retórica” pode entender-se outra coisa: a arte de persuadir independentemente da validade dos argumentos.
O papel da lógica informal pode ser ilustrado com o seguinte argumento:
1) Se desejarmos apurar as capacidades cognitivas dos alunos, temos de os ensinar a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
2) Se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, o objectivo do seu ensino será apurar as capacidades cognitivas dos alunos.
C) Logo, se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, temos de ensinar os alunos a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
Do ponto de vista da lógica formal é indiferente apresentar o argumento por esta ordem, ou inverter a ordem e começar por 2 em vez de 1. No entanto, o argumento é mais facilmente compreensível se começarmos por 2. A lógica informal aconselha a começar por 2 (cf. Weston, Anthony, A Arte de Argumentar, Gradiva, Lisboa, 1996, págs. 21-23).
Contudo, a retórica aconselha a não mudar a ordem, precisamente pela mesma razão. Enquanto a lógica informal é uma actividade que tem como objectivo o argumento válido persuasivo, a retórica tem por objectivo único persuadir o interlocutor — e é mais fácil persuadir o interlocutor quando ele não consegue avaliar o argumento em causa por ficar confundido, uma vez que assim também não consegue refutá-lo. Enquanto a lógica informal tem por objectivo oferecer a possibilidade do pensamento crítico, a retórica tem por objectivo silenciar o pensamento crítico e persuadir a outra pessoa, independentemente da validade dos argumentos apresentados.
Nenhuma retórica pode transformar um argumento mau num bom argumento; o que a retórica pode fazer, no máximo, é disfarçá-lo; mas não ajuda a apresentar argumentos válidos nem a denunciar os inválidos. É a lógica informal que ajuda a fazer ambas as coisas.
Tanto a lógica informal como a retórica têm em conta o auditório, mas de modos distintos. Do ponto de vista da retórica qualquer argumento que convença um auditório é bom, pois a persuasão é a única medida da argumentação. Mas é evidente que as piores falácias podem persuadir muitos auditórios, e nem por isso deixarão de ser falácias, ainda que sejam falácias persuasivas (aliás, por definição, uma falácia é um argumento inválido que é persuasivo porque parece válido, e portanto a retórica é incapaz de explicar o próprio conceito de falácia). Para a lógica informal, pelo contrário, o auditório é importante mas não determina só por si a validade ou invalidade da argumentação. O auditório é importante na lógica informal porque, por exemplo, ao argumentar a favor de uma dada ideia temos de escolher premissas que consideremos verdadeiras e que sejam aceitáveis para o nosso auditório; caso contrário estaremos a falar apenas para quem já aceita as nossas ideias. É por isso que o seguinte argumento é mau:
O aborto não deve ser permitido porque é o assassínio de inocentes.
Este argumento é mau porque quem não aceita a conclusão (“O aborto não deve ser permitido”) também não aceita a premissa (“O aborto é o assassínio de inocentes”). A argumentação criativa é a arte de mostrar que há argumentos válidos a favor de P que partem de premissas que quem é contra P está disposto a aceitar. E esta arte não se adquire com o estudo da retórica, mas sim com o estudo da lógica informal.

Exercícios

  1. “A retórica complementa a lógica e ultrapassa os seus limites.” Concorda? Porquê?
  2. Qual é o objecto de estudo da lógica informal?
  3. Qual é o objecto de estudo da retórica?
Desidério Murcho
Extraído de O Lugar da Lógica na Filosofia, de Desidério Murcho (Plátano, 2003