quinta-feira, 18 de abril de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
Nietzsche em Portugal
Juntamente com Marx e Freud, Nietzsche pode ser considerado o filósofo da suspeita por colocar em causa todo o edifício tradicional do pensamento ocidental. Tal facto promoveu junto da intelectualidade portuguesa, nomeadamente no início do século vinte, um grande entusiasmo por garantir um fundo de legitimação intelectual para a postura poética e literária. É com o recurso a Nieztsche que melhor se traduz a característica total do fenómeno cultural português
Sem querer menosprezar alguns autores como Vianna da Mota, Manuel Laranjeira ou Mário Saa, é em Almada e Álvaro de Campos que a emergência vitalista mais é promovida. As ideias de exaltação da vida pela vida, optimismo e vitalismo, a arte como nova metafísica, o sobre humano, o amoralismo do para lá do bem e do mal e a morte de Deus fomentaram o ideário modernista e futurista. A via intelectual funcionou como um revigorante da alma portuguesa depois do decadentismo fin du siècle.
Almada Negreiros alimenta esta atitude em textos como Cena do Ódio ou Ultimatum às Gerações Futuras. Na primeira transmite a ideia de que a civilização e o pensar são sintomas da decadência. Além amoralismo implícito no cantar dos vícios e dos instintos, há uma explícita afirmação de Zaratrusta. No segundo texto, surgem outros motivos nietzscheanos como o vitalismo, a apologia da guerra, crítica à democracia, compaginação entre força e inteligência, lexemas próximos do super-homem: «homem completo», «Homem definitivo».
Álvaro de Campos escreve, na revista Portugal Futurista (1917), «Ultimatum», texto de vanguarda estética onde assimila os valores futuristas: «O super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo», assim como afirma que «Os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmética». A erotização das máquinas que caracteriza a estetização tecnológica e a exaltação do eu estão bem presentes nas «Hup lá, hup lá, hup lá-hô, hup-lá Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o ZZZZZZZZZZZZZZZZZZ» assim como quando diz: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente por tudo isto.»
Nas Odes Marítima e Triunfal é reafirmado este pendor estético, acrescentando ao amoralismo a razão de ser da verdadeira moral. Por isso, afirma que o lado mau da história é a condição para o bem por que «sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sentimento de que tinha consciência.»
António Daniel
segunda-feira, 11 de março de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Bento Espinosa - Parte III
A vida de Espinosa é ela mesma um
exemplo da sua teoria: a afirmação potente e positiva de amor à vida, isto é, da
alegria. Realizou, portanto, uma crítica implacável das atitudes, das crenças, que
nutrem ódio à vida, que se rodeiam de cultos da morte, do homem envergonhado,
culpado, arrependido, invejoso, ressentido, que sufoca a vida com leis,
propriedades, deveres, impérios, às quais Espinosa chama “traições” à vida, ao
universo. O que há de pior no homem? A glorificação da passividade e da
submissão, a invenção da morte interior, essa alma masoquista que o exercício
da obediência instila.
Qual é a tese teórica central do
espinosismo? Esta: existe uma só Substância que possui uma infinidade de
atributos, Deus sive natura (Deus ou Natureza), sendo todos os seres modos
destes atributos ou modificações desta substância. Embora os atributos sejam
infinitos, a inteligência limitada do homem só pode conhecer dois: a extensão e o pensamento. Esforçar-se por conhecer é, portanto, uma paixão
alegre, positiva. Unir-se ao todo,
perceber o encadeamento de todas as coisas, das causas e dos efeitos,
totalidade na qual tudo tem uma razão, um nexo, uma necessidade imanente. Assim sendo, é rejeitada a
existência efetiva de qualquer entidade transcendente criadora e justiceira,
remetem-se estas fantasmagorias para o império do desejo e da imaginação, da
mecânica psicológica do medo e da servidão. Unicidade da substância,
univocidade dos atributos, imanência absoluta, interconexão entre o corpo e o
pensamento (dois atributos distintos mas paralelos da mesma substância). Compreende-se porque é filósofos do século
dezoito hajam concluído que tudo que existe é natureza ou matéria, sendo o
pensamento uma dimensão ou faculdade, gozando de autonomia muito embora, da
mesma, única e infinita natureza, excluindo a existência de uma alma imortal e
de um Deus transcendente mas pessoal, isto é, antropomórfico. Compreende-se a
influência ministerial de Espinosa sobre os materialismos, mas não é a única
interpretação: Espinosa, em rigor, não foi ateu. Nem ateu, nem panteísta.
Não nos é possível mais do que
transmitir aos jovens leitores deste escrito brevíssimas referências ao
conteúdo dos seus livros.
Tratado sobre a reforma do entendimento – Tradução, prefácio e
notas de António Borges Coelho, Livros Horizonte, 1971. “ É nele (no Tratado) que é necessário procurar a
chave de todo o sistema (o sistema filosófico de Espinosa): é como um prefácio
da ÉTICA e por certo não existe no
mundo outro modelo tão perfeito de análise filosófica», Alain, Spinoza, cit. por A.B.C.
ÉTICA - O que Espinosa expõe na 1ª Parte da ÉTICA é a definição de substância de tal modo que impossibilita
a existência de outra substância da mesma natureza, isto é, que tivesse o mesmo
atributo. Daí se segue que não podem existir um ser ou Deus sobrenatural, e, por conseguinte, fica
estabelecida a impossibilidade lógica de uma criação extranatural, o dualismo,
a transcendência. Como chegar, porém, a ser consciente de si mesmo, de Deus e
das coisas, quando a nossa consciência parece inseparável das ilusões e das
paixões?
Como conseguir formar ideias
adequadas, promotoras de sentimentos ativos, positivos, quando parecemos
condenados, pela nossa limitada natureza, a não ter senão ideias inadequadas?
Ora, na realidade, não estamos condenados. O estilo “geométrico”, o
encadeamento lógico dos raciocínios, as definições “claras e evidentes”, da
ÈTICA, o demonstra (de resto, foi para tal que Espinosa redigiu o Tratado sobre
a reforma do entendimento). O conhecimento que é necessário ao homem é o que se
adequa plenamente à ideia do objeto e tem por isso em si a garantia necessária da
sua verdade. As afeções estão sujeitas às mesmas leis (ordem) da natureza. O
seu conhecimento permitir-nos-á escolher quais os objetos que melhor se adequem
ao nosso corpo.
Absoluta é só a substância una e única, Deus exprime a
potência absoluta de existir e de agir, a potência absoluta de pensar e de
compreender.
A aceção do conceito de Razão, em
Espinosa, tem ocupado muitos comentadores. De entre muitos, preferimos seguir a
análise desenvolvida por Maria Luísa Ribeiro Ferreira.[1] A “razão abrangente”, a “razão constitutiva”
( citamos a autora) “sobreleva a representacional pois a categoria da
representação é desvalorizada em detrimento da identificação, da sintonia com o
Todo”[2] A Razão,
para Espinosa, possui uma dimensão ontológica, é fundamento e causa.
A Razão é um modo da ação dos
homens. “Mas, a verdadeira capacidade de agir do homem, ou seja, a sua virtude
é a própria Razão (pela proposição 3 da Parte III), que o homem contempla clara
e distintamente” [3]
Distinção espinosana entre razão e
entendimento: no livro IV da ÈTICA, o entendimento é identificado com a razão
“Por conseguinte é sumamente útil aperfeiçoar o entendimento ou a razão tanto
quanto pudermos”. [4]
Todavia, no livro II, diz o seguinte: “De tudo o que acima foi dito,
resulta claramente que nós temos muitas perceções e formamos noções
universais: 1º Das coisas singulares que os sentidos representam mutiladas,
confusas e sem ordem à inteligência; por esta razão, tomei o hábito de chamar a
essas perceções conhecimento pela experiência vaga.
2º Dos sinais, por exemplo, do
facto de termos ouvido ou lido certas palavras, nos recordamos das coisas e
delas formamos ideias semelhantes àquelas pelas quais imaginamos as coisas.
Para o futuro, chamarei a essas duas maneiras de considerar as coisas: conhecimento
do primeiro género, opinião ou imaginação.
3º Finalmente, do facto de termos
noções comuns e ideias adequadas das propriedades das coisas. A este género,
darei o nome de Razão e conhecimento do segundo género.
Além destes dois géneros de
conhecimento, há ainda um terceiro como o mostrarei a seguir, a que chamaremos ciência
intuitiva. Este género de conhecimento procede da ideia adequada da
essência formal de certos atributos de Deus para o conhecimento adequado da
essência das coisas”[5].
O que é essencial à natureza
humana é por conseguinte idêntico em todos. Daí que quanto mais cada homem
procura a sua conveniência, tanto mais os homens são semelhantes entre si e
podem ser úteis uns aos outros (Ét., IV, cit. por Nicola Abbagnano, H. da
Filosofia, v. VI, Presença).
José Augusto Nozes Pires
[1] A Dinâmica da Razão na
Filosofia de Espinosa, dissertação de doutoramento, Lisboa, 1993.
[2] P.220.
[3] “At vera hominis agendi
potentia, seu virtus est opsa ratio (per Prop.3.p.3.), quam homo clarè, &
distinctè contemplatur (per Prop.40. & 43.p.2), Spinoza Opera, obra cit.,
p.249, Ethica, P. IV, P. LII. Dem.
[4] “In
vitâ itaque apprimè utile est, intellectum seu rationem, quantùm possumus,
perficere, & in hoc uno summa hominis felicitas, seu beatitudo
consisti ; » Et., IV, Appendix, caput IV, G. II., p.267
[5] “Ex
omnibus suprà dictis clarè apparet, nos multa percipere, & notiones
universalis formare Iº. Ex singularibus, nobis per sensûs mutilatè, confusè,
& fine ordine ad intellectum repraesentatis: & idèo tales perceptiones
cognitionem ab experientiâ vagâ vocare consuevi. IIº Ex signis, ex. gr. Ex eo,
quòd auditis, aut lectis quibusdam verbis rerum recordemur, & earum quasdam
ideas formemus similes iis, per quas res imaginamur. Utrumque hunc res
contemplandi modum cognitionem primi generis, opiniomem, vel imaginationem in
posterum vocabo. IIIº.
Denique ex eo, quòd notiones comunes, rerumque proprietatum ideas adaequatas
habemus; atque hunc ratonem, & secundi generis cognitionem vocabo. Praeter
haec duo cognitionis genera datur, ut in sequentibus ostendam, aliud tertium,
quod scientiam intuitivam vocabimus. Atque hoc cognoscendi genus procedit ab adaequatam
cognitionem essendiae rerum.”, Et., P.II,Prop.XL.,Esc.II,p.122.
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