segunda-feira, 19 de maio de 2014

Popper e Hume

David Hume afirmou a existência de questões de facto e relações de ideias no que ao conhecimento diz respeito. Se as relações de ideias não nos dizem nada acerca do mundo, porque são «a priori», já as segundas são provenientes da experiência. São «a posteriori» e o seu princípio lógico é a indução, isto é, a repetição de um número de casos leva-nos a supor a existência desses casos. Por exemplo, suponhamos que sou extraterrestre e vejo vários cisnes pretos, como um dos meus processos lógicos é a indução concluo que todos os cisnes são pretos. Estou a pensar através da observação de casos particulares para concluir uma ideia geral. Hume considerava este processo a única forma de produzir conhecimento, o que o levou a supor que não possuo segurança total para afirmar que o próximo cisne será preto. Também é normal que, através da indução, estabeleça uma relação causa-efeito. Sempre que lanço uma pedra, a pedra cai, levando-me a concluir que as pedras, sempre que lançadas, caem. Para Hume, esta conclusão é alcançada através do hábito e da sucessão temporal. Mas daí não consigo afirmar com convicção que sempre assim será, sempre que lanço uma pedra, a pedra cairá.

Popper tentou ultrapassar este processo, porque deste modo não confiaríamos na ciência. Ora, é bom que confiemos na ciência, caso contrário havemos de confiar em quê? Popper tentou solucionar este impasse afirmando que, ao contrário da ideia de Hume (a prática precede a teoria), no conhecimento a teoria precede a prática. Assim sendo, Popper afirma que o método deve ser hipotético-dedutivo porque o importante na ciência não é como chegamos à teoria, mas como da teoria desenvolvemos a experiência. 



Popper acrescenta uma nova fase ao processo de Hume. Possuindo a Teoria (todos os cisnes são pretos) encetamos a procura de factos que REFUTEM a teoria. A este procedimento, Popper designa-o de FALSIFICACIONISMO e que é diferente do VERIFICACIONISMO.

O verificacionismo é um procedimento do método indutivo, baseando-se na ideia de que devemos procurar factos que comprovem a teoria. Por exemplo, tendo a teoria de que todos os cisnes são pretos, devemos na fase experimental procurar cisnes pretos., o que para Popper é manifestamente impossível, pois o verificacionismo exigiria conhecer todos os factos, existentes e não existentes.

O falsificacionismo é diferente. Quando possuímos a teoria de que todos os cisnes são pretos, devemos procurar factos que refutem a teoria, isto é, devemos procurar cisnes brancos. Por esse motivo, Popper designa as teorias de CONJETURAS, meras hipóteses que necessitam de ser contrariadas. Uma boa teoria científica será, portanto, aquela que se predispõe a ser refutada. Alcança-se a OBJETIVIDADE da ciência. Uma teoria é objectiva se puder ser refutada, se se predispuser a que se encontre factos observáveis que refutem a teoria inicial.


Por que razão a astrologia não pode ser científica? Quando lemos o nosso horóscopo reparamos que estão escritos de tal forma que parece que acertam sempre. Ora, a ciência é boa caso seja possível constatar que possa ser falsa.

António Daniel

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

EXistenZ: O Problema do Livre Arbítrio






O filme de David Cronenberg de 1999 insere-se num ambiente cinematográfico muito curioso de finais de milénio. Surgiram realizações como Matrix ou The Truman Show que sugestionaram uma realidade manipulada, ou por uma máquina publicitária, onde se joga o destino e a vida, ou por um programa que enceta mecanismos de perfeita manipulação, do género «Deus ex machina». 
Existenz insere-se nesta vertente cinematográfica com a novidade de apresentar a noção de jogo, como é apresentado em Matrix, e com a tentativa, conseguida, de produção da ideia de ausência de limite entre a realidade e a ficção. A realidade é ficção ou a ficção é a realidade? Seja qual for a resposta, em Existenz surge um enredo proporcionado pelo jogo, sendo o próprio filme um jogo, com as suas regras e  respetivas possibilidades de escolha que permitem a sucessão de acontecimentos numa cadeia de relação causa-efeito, como é perfeitamente evidente na cena do restaurante chinês. Todos os momentos são, pois, direcionados num processo causal, tendo o jogador a única função de descobrir as diversas portas que se vão abrindo, permitindo-lhe pensar que tudo depende da sua capacidade de resposta e de decisão. Mesmo em momentos de possível desistência, que pretende questionar a presença de vontade própria e decisão de Law, somos levados para outros mundo virtuais o que leva o próprio Law a interrogar-se sobre a separação entre o real e o virtual. A vida surge como um processo de alienação da realidade (o que é isto), da circunstância pessoal, correspondendo a um plano pre-estabelecido e determinístico. Conhecendo as causas, conhece-se os efeitos. 
O final é o desenlace de todo o processo virtual, ou simplesmente o começo? Será que no mundo virtual existe esta evidência temporal? O tempo foi construído na assumpção de que o ser humano é capaz de o produzir. Apesar do passado existir e apresentar razões para, o presente consiste na capacidade de alterar o curso normal dos acontecimentos. No mundo virtual tudo é mera aparência.O final é sempre um começo. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O conhecimento filosófico

O conhecimento filosófico

Quando pretendemos escrever sobre um qualquer assunto é conveniente definir muito bem os termos com que faremos o nosso texto.

Conhecimento pode ser definido como uma crença, entendida como algo em que nós acreditamos; verdadeira, porque tem que corresponder à realidade e, obviamente, justificada. Não vale dizermos seja o que for sem saber justificar o que foi dito. Nesta medida, o conhecimento refere-se sempre a algo e visa compreendê-lo. Para tal faz-se um esforço para organizar as ideias, no sentido de lhes fornecer uma ordem. Quando nos deparamos com uma situação nova, somos levados a procurar uma ideia, um sentido àquilo para me sentir mais seguro. Só que, por vezes, a realidade não é assim tão fácil. Há assuntos que merecem mais a nossa atenção do que outros; assim como há assuntos que são mais facilmente resolúveis por determinadas ciências. Um cientista procura, através de um método e instrumentos próprios, conhecer a realidade, dando-lhe um certo significado. Por isso, cria fórmulas químicas, modelos matemáticos, classificações de plantas e animais… Atenção, não quer isto dizer que a filosofia não necessita da ciência. Aliás, é imprescindível o recurso à ciência para fazer filosofia.

Vamos fazer a ligação com a filosofia
A filosofia não envereda por estes caminhos. Os seus recursos técnicos não são idênticos às ditas ciências naturais. Na filosofia não se usam microscópios (embora, por vezes, seja necessário um olhar de lince), muito menos provetas. Na filosofia recorre-se à argumentação. O raciocínio é uma predisposição que possuímos que nos leva a pensar sistematicamente com o objetivo de qualquer pessoa reconhecer como correto. A razão é, deste modo, um recurso importante porque nos propõe utilizar um método que seja imune ao individual e social. A lógica tem aqui um papel preponderante.

Agora uma ligação com os argumentos
A correção dos nossos argumentos é uma exigência social. Daí que a filosofia recorra de forma assídua à lógica. Esta mostra-nos quando um argumento é ou não válido, tem ou não sentido, o que não impede que façamos as devidas correções às premissas que sustentam a conclusão. Isso mesmo, um argumento é um encadeamento de ideias em que a última é sempre expressão das anteriores.
Não parece muito viável que executamos qualquer ponto de vista a partir de uma forma desconexa, pois não permitiria que a racionalidade do outro fosse respeitada. Também ninguém quereria ficar nesta situação porque todos nós temos um conjunto de teses sobre a realidade que gostamos de partilhar. As teses não são mais do que ideias que formulamos acerca dos problemas; proposições, verdadeiras ou falsas, sobre os mais variados assuntos. Mas sejamos sérios. Estas ideias não se podem ficar por meras opiniões, elas devem ser sustentadas por argumentos que enalteçam a clareza e a racionalidade. Os problemas da vida assim o exigem. 

(aproveito para falar de problemas).

Problemas há muitos. É comum identificarmos um problema com uma situação que apela à nossa intervenção e compreensão, no sentido de ser clarificado para nosso benefício. Mas atenção, a filosofia não se debruça sobre o problema, por exemplo, da transmissão de certas doenças; os problemas da filosofia correspondem às designadas crenças básicas, crenças que servem de apoio a todas as outras. Se estou a tentar conhecer algo é porque resolvi uma questão que lhe serve de referência: o que é o conhecimento? Da mesma forma, se for crente é porque confio na crença básica do crente: Deus existe (apesar de em Filosofia o encontro com Deus seja racional). Se ouço uma música e dela usufruir, encontro-me em condições de descrever uma crença básica: o que é arte? Quando me dirijo a uma urna no sentido de votar, encontro neste ato uma pergunta básica: o que é a política? Numa situação de comportamento moral sei, ou devia saber, responder à pergunta: o que é o bem? O que é o mal?

António Daniel

sábado, 14 de setembro de 2013



As questões filosóficas costumam ser sintetizadas em quatro:


  • O que posso saber?
  • O que devo fazer?
  • Que me é permitido esperar?
  • Que é o Homem
São quatro grandes questões que, segundo Kant, abrange o campo da filosofia. A primeira acentua o conhecimento que, numa terminologia muito própria, se designa de gnosiologia, quando nos referimos ao conhecimento em geral, ou epistemologia, se as nossas preocupações se referem ao conhecimento científico. Esta distinção é puramente formal, já que o conhecimento científico é produzido na base de construção de qualquer conhecimento. Portanto, quando pergunto sobre o que posso saber, questiono a possibilidade de conhecer, a essência desse conhecer e a sua origem.

Ao conhecimento está ligado de forma indissociável o fazer. O fazer leva-nos ao conhecer, o conhecer permite-nos fazer. Porém quando fazemos algo, o horizonte do fazer encontra sempre «os outros». Tudo o que o ser humano faz implica  a existência do outro. Como consequência, «faço» de acordo com aquilo que à partida pode ser bom ou mau.O bem e o mal são dois termos que prefiguram uma coexistência entre os seres humanos. Na natureza o bem e o mal são inexistentes. São valores inscritos na existência humana que confere à ação um conteúdo ético.

Às ações juntam-se inevitáveis conceitos. Quando em tribunal se avalia a culpabilidade ou inocência de um réu, os motivos, as razões, as intenções o carácter deliberativo e decisório do agente são aspectos que um bom advogado terá que levar em consideração. Para tal, deve dominar estas noções para que se aproxime de uma ideia de Homem.

«O que é o Homem?» é a pergunta fundamental. Talvez lá para o fim do ano possamos encontrar uma resposta. Até lá vamos tentado.