sexta-feira, 20 de junho de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Popper e Hume
David Hume afirmou a existência
de questões de facto e relações de ideias no que ao conhecimento diz respeito.
Se as relações de ideias não nos dizem nada acerca do mundo, porque são «a priori»,
já as segundas são provenientes da experiência. São «a posteriori» e o seu
princípio lógico é a indução, isto é, a repetição de um número de casos leva-nos
a supor a existência desses casos. Por exemplo, suponhamos que sou
extraterrestre e vejo vários cisnes pretos, como um dos meus processos lógicos
é a indução concluo que todos os cisnes são pretos. Estou a pensar através da
observação de casos particulares para concluir uma ideia geral. Hume
considerava este processo a única forma de produzir conhecimento, o que o levou
a supor que não possuo segurança total para afirmar que o próximo cisne será
preto. Também é normal que, através da indução, estabeleça uma relação
causa-efeito. Sempre que lanço uma pedra, a pedra cai, levando-me a concluir
que as pedras, sempre que lançadas, caem. Para Hume, esta conclusão é alcançada
através do hábito e da sucessão temporal. Mas daí não consigo afirmar com
convicção que sempre assim será, sempre que lanço uma pedra, a pedra cairá.
Popper tentou ultrapassar este
processo, porque deste modo não confiaríamos na ciência. Ora, é bom que
confiemos na ciência, caso contrário havemos de confiar em quê? Popper tentou
solucionar este impasse afirmando que, ao contrário da ideia de Hume (a prática
precede a teoria), no conhecimento a teoria precede a prática. Assim sendo,
Popper afirma que o método deve ser hipotético-dedutivo porque o importante na
ciência não é como chegamos à teoria, mas como da teoria desenvolvemos a
experiência.
Popper acrescenta uma nova fase
ao processo de Hume. Possuindo a Teoria (todos os cisnes são pretos) encetamos
a procura de factos que REFUTEM a teoria. A este procedimento, Popper designa-o
de FALSIFICACIONISMO e que é diferente do VERIFICACIONISMO.
O verificacionismo é um
procedimento do método indutivo, baseando-se na ideia de
que devemos procurar factos que comprovem a teoria. Por exemplo, tendo a teoria
de que todos os cisnes são pretos, devemos na fase experimental procurar cisnes
pretos., o que para Popper é manifestamente impossível, pois o verificacionismo exigiria conhecer todos os factos, existentes e não existentes.
O falsificacionismo é diferente.
Quando possuímos a teoria de que todos os cisnes são pretos, devemos procurar
factos que refutem a teoria, isto é, devemos procurar cisnes brancos.
Por esse motivo, Popper designa as teorias de CONJETURAS, meras hipóteses que
necessitam de ser contrariadas. Uma boa teoria científica será, portanto,
aquela que se predispõe a ser refutada. Alcança-se a OBJETIVIDADE da ciência.
Uma teoria é objectiva se puder ser refutada, se se predispuser a que se
encontre factos observáveis que refutem a teoria inicial.
Por que razão a astrologia não
pode ser científica? Quando lemos o nosso horóscopo reparamos que estão
escritos de tal forma que parece que acertam sempre. Ora, a ciência é boa caso
seja possível constatar que possa ser falsa.
António Daniel
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
EXistenZ: O Problema do Livre Arbítrio
O filme de David Cronenberg de 1999 insere-se num ambiente cinematográfico muito curioso de finais de milénio. Surgiram realizações como Matrix ou The Truman Show que sugestionaram uma realidade manipulada, ou por uma máquina publicitária, onde se joga o destino e a vida, ou por um programa que enceta mecanismos de perfeita manipulação, do género «Deus ex machina».
Existenz insere-se nesta vertente cinematográfica com a novidade de apresentar a noção de jogo, como é apresentado em Matrix, e com a tentativa, conseguida, de produção da ideia de ausência de limite entre a realidade e a ficção. A realidade é ficção ou a ficção é a realidade? Seja qual for a resposta, em Existenz surge um enredo proporcionado pelo jogo, sendo o próprio filme um jogo, com as suas regras e respetivas possibilidades de escolha que permitem a sucessão de acontecimentos numa cadeia de relação causa-efeito, como é perfeitamente evidente na cena do restaurante chinês. Todos os momentos são, pois, direcionados num processo causal, tendo o jogador a única função de descobrir as diversas portas que se vão abrindo, permitindo-lhe pensar que tudo depende da sua capacidade de resposta e de decisão. Mesmo em momentos de possível desistência, que pretende questionar a presença de vontade própria e decisão de Law, somos levados para outros mundo virtuais o que leva o próprio Law a interrogar-se sobre a separação entre o real e o virtual. A vida surge como um processo de alienação da realidade (o que é isto), da circunstância pessoal, correspondendo a um plano pre-estabelecido e determinístico. Conhecendo as causas, conhece-se os efeitos.
O final é o desenlace de todo o processo virtual, ou simplesmente o começo? Será que no mundo virtual existe esta evidência temporal? O tempo foi construído na assumpção de que o ser humano é capaz de o produzir. Apesar do passado existir e apresentar razões para, o presente consiste na capacidade de alterar o curso normal dos acontecimentos. No mundo virtual tudo é mera aparência.O final é sempre um começo.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
O conhecimento filosófico
O conhecimento filosófico
Quando pretendemos escrever sobre um qualquer assunto é
conveniente definir muito bem os termos com que faremos o nosso texto.
Conhecimento pode ser definido como uma crença, entendida
como algo em que nós acreditamos; verdadeira, porque tem que corresponder à
realidade e, obviamente, justificada. Não vale dizermos seja o que for sem
saber justificar o que foi dito. Nesta medida, o conhecimento refere-se sempre
a algo e visa compreendê-lo. Para tal faz-se um esforço para organizar as
ideias, no sentido de lhes fornecer uma ordem. Quando nos deparamos com uma
situação nova, somos levados a procurar uma ideia, um sentido àquilo para me
sentir mais seguro. Só que, por vezes, a realidade não é assim tão fácil. Há
assuntos que merecem mais a nossa atenção do que outros; assim como há assuntos
que são mais facilmente resolúveis por determinadas ciências. Um cientista
procura, através de um método e instrumentos próprios, conhecer a realidade,
dando-lhe um certo significado. Por isso, cria fórmulas químicas, modelos
matemáticos, classificações de plantas e animais… Atenção, não quer isto dizer
que a filosofia não necessita da ciência. Aliás, é imprescindível o recurso à
ciência para fazer filosofia.
Vamos fazer a ligação com a filosofia
A filosofia não envereda por estes caminhos. Os seus
recursos técnicos não são idênticos às ditas ciências naturais. Na filosofia
não se usam microscópios (embora, por vezes, seja necessário um olhar de
lince), muito menos provetas. Na filosofia recorre-se à argumentação. O
raciocínio é uma predisposição que possuímos que nos leva a pensar
sistematicamente com o objetivo de qualquer pessoa reconhecer como correto. A
razão é, deste modo, um recurso importante porque nos propõe utilizar um método
que seja imune ao individual e social. A lógica tem aqui um papel
preponderante.
Agora uma ligação com os argumentos
A correção dos nossos argumentos é uma exigência social. Daí
que a filosofia recorra de forma assídua à lógica. Esta mostra-nos quando um
argumento é ou não válido, tem ou não sentido, o que não impede que façamos as
devidas correções às premissas que sustentam a conclusão. Isso mesmo, um
argumento é um encadeamento de ideias em que a última é sempre expressão das
anteriores.
Não parece muito viável que executamos qualquer ponto de
vista a partir de uma forma desconexa, pois não permitiria que a racionalidade
do outro fosse respeitada. Também ninguém quereria ficar nesta situação porque
todos nós temos um conjunto de teses sobre a realidade que gostamos de
partilhar. As teses não são mais do que ideias que formulamos acerca dos
problemas; proposições, verdadeiras ou falsas, sobre os mais variados assuntos.
Mas sejamos sérios. Estas ideias não se podem ficar por meras opiniões, elas
devem ser sustentadas por argumentos que enalteçam a clareza e a racionalidade.
Os problemas da vida assim o exigem.
(aproveito para falar de problemas).
Problemas há muitos. É comum identificarmos um problema com
uma situação que apela à nossa intervenção e compreensão, no sentido de ser
clarificado para nosso benefício. Mas atenção, a filosofia não se debruça sobre
o problema, por exemplo, da transmissão de certas doenças; os problemas da
filosofia correspondem às designadas crenças básicas, crenças que servem de
apoio a todas as outras. Se estou a tentar conhecer algo é porque resolvi uma
questão que lhe serve de referência: o que é o conhecimento? Da mesma forma, se
for crente é porque confio na crença básica do crente: Deus existe (apesar de em Filosofia o encontro com Deus seja racional). Se ouço uma
música e dela usufruir, encontro-me em condições de descrever uma crença
básica: o que é arte? Quando me dirijo a uma urna no sentido de votar, encontro
neste ato uma pergunta básica: o que é a política? Numa situação de
comportamento moral sei, ou devia saber, responder à pergunta: o que é o bem? O
que é o mal?
António Daniel
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