sábado, 2 de janeiro de 2016

Popper. Os mundos, o critério de objetividade e o falsificacionismo.


Karl Popper

Os mundos 1, 2, 3. Falsificacionismo e critério da objetividade.


Inerente à problemática mente-corpo (deslocalizando-se das perspetivas monistas ou dualistas), Popper propõe uma visão pluralista no que toca à realidade.
Mundo 1: Objetos pertencentes ao espaço físico: nele se inserem os objetos naturais e os objetos produzidos pelo homem. Há objetos que pertencem simultaneamente ao mundo 1 e mundo 3. «Tudo o que se pode pontapear e devolver o pontapé» (p. 117 O Conhecimento e o Problema Mente-Corpo)
Mundo 2: Mundo psicológico, consciente, corresponde à subjetividade e às respetivas disposições para agir.
Mundo 3: Produtos do espírito humano. Nele se insere a ciência, os argumentos as teorias e o erro.
Face a esta apresentação, quais as características da realidade?
1.      Visão pluralista. Rejeição do monismo, no sentido behaviorista, fisicalista ou material. A existência de qualquer um dos mundos não é exclusiva.
2.      As teorias, próprias do mundo 3, interagem com o mundo , basta pensar nas implicações das produções humanas, tais como centrais nucleares, arranha-céus ou outros…
3.      O mundo 2 existe porque nós temos de compreender uma teoria do mundo 3 antes de a podermos usar do mundo 1. Compreender é uma questão mental. mutatis mutandis, o mundo 2 necessita do mundo 1. O cérebro, uma realidade entre outras, produz pensamento. Numa frase própria de Searle, cérebros (mundo 1) causam mentes (mundo 2).
4.      A relativa autonomia do mundo 3. Existe uma parte constituída por conteúdos de pensamento objetivos que são independentes e claramente distintos dos processos de pensamento subjetivos. Por exemplo, existem números naturais (1,2,3,4…) que são inventados por nós. Mas, se pensarmos nos números pares ou primos já são formas compreensivas, não são inventados mas descobertos por nós. Os números naturais são inventados, mas existem consequências involuntárias desse produto do espírito humano. Descobriu-se que quanto mais se avança na sequência dos números naturais mais raro se torna a ocorrência de números primos. Esta é uma propriedade autónoma do mundo 3. (pág. 121, Op. Cit.)
5.      Contudo, a verdade ou a falsidade dos acontecimentos do mundo 3 depende do mundo 1, do próprio padrão da realidade, garantindo-se a objetividade da construção humana.

O MUNDO 3
A ciência é uma produção do espírito humano mas como aplicações normativas o que determina a sua autonomia. Tal como referimos, o conhecimento objectivo pertence ao mundo 3 mas com sérias repercussões no mundo 1 (op. Cit. P22)
Definição de ciência: «Supersimplificação sistemática da realidade, isto é, a arte de discernir aquilo que podemos omitir com vantagem para nós.» p 59 ( Universo Aberto.). É uma realidade própria do mundo 3 porque resulta de uma interpretação do mundo 2 sobre o mundo 3. Se procurarmos a objectividade, é no mundo 3 que a podemos encontrar. O conhecimento objectivo possui uma vasta aplicação, vai desde registos, gráficos, construções, hipóteses, suposições e, acima de tudo, problemas.
1.      A simplificação da descoberta científica consiste na construção de rede por forma a «apanhar» a realidade. O progresso científico é, pois, a construção de redes cada vez mais bem adaptadas. Essas redes são da nossa autoria, são racionais e não são uma representação da realidade.
2.      O mundo é complexo. Ainda que por vezes as teorias revelem alguma simplicidade, não implica a intrínseca simplicidade do mundo.
3.      A função dessa rede é encontrar problemas a partir do seguinte esquema:
P1(problema de partida)®TE (teoria experimental)®EE(eliminação de erros)®P2 (problemas finais).

A Verdade

Popper parte da convicção da existência de verdade de forma objetiva e absoluta. No sentido de ultrapassar as tendências subjetivas da verdade (Popper, Conjeturas e Refutações) consideradas nas teorias coerentistas, na teoria da evidência e a teoria pragmática ou instrumentalista, Popper atribui a Tarski uma importância fundamental na definição de verdade. Efetivamente, o lógico polaco coloca a tónica da verdade na estrutura lógica de uma bicondicional: «o mar é líquido» se, e só se, o mar for líquido Assim, a verdade deve ser definida relativamente a uma determinada linguagem e estar de acordo com a condição da não-criatividade (não se pode obter novos teoremas por consequência da definição) e da eliminabilidade (a qualquer momento o definido pode ser substituído pela definição). São estas as condições - e não os critérios - para que uma sentença seja verdadeira. Popper conclui daqui que a verdade existe apesar de não sabermos se algo é verdadeiro. O trabalho do cientista assemelha-se muito a um alpinista (Popper, op.cit), apesar de saber que a verdade está no cume e que para lá caminha, o seu trabalho consiste em encontrar obstáculos passíveis de serem contornados. Aquilo que alcança são verosimilhanças.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Estrutura das Revoluções Científicas. Pequena Análise




A. Leitura da Introdução e do Capítulo 1 de A estrutura das Revoluções Científicas e explicação do que Kuhn quer dizer com "ciência normal" e "paradigma".
Ciência Normal:
1- Pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas.
2- Institucionalização do paradigma. Reconhecimento por parte da comunidade científica dessas realizações.
Paradigma:
1- Teoria ou conjunto de teorias que formam uma visão do mundo e diz o que é a ciência. Matriz, critério para a escolha de problemas.
Para Kuhn, o termo Paradigma possui vários aspectos, entre os quais:
2- Lógicos: modo como estão organizadas as principais equações e os principais pensamentos. Ex.: para Newton f=m.a, para Einstein e=m.c2.
3- Metafísicos: modo como se concebe a realidade. Para Newton a natureza é um conjunto de partículas sob a acção de forças.
4- Axiológicos: Um paradigma consiste numa interpretação que revela simplicidade e coerência na forma como as teorias resumem a realidade. Aliás, estas características contribuem para a sua aceitabilidade por parte dos cientistas.
5- Aspectos técnicos: O paradigma também reflecte modelos de resolução dos problemas e promulga técnicas e métodos adequados de investigação. Além disso, o paradigma transporta consigo determinados aspectos conceptuais muito próprios. Ex. A teoria da evolução das espécies de Darwin possui uma manta de conceitos muito específicos.
6- Aspectos sociológicos: O paradigma reflecte um acordo consensual por parte da comunidade científica. Para tal, o defensor do paradigma terá de apresentar uma proposta, uma visão do mundo, de forma convincente e persuasiva.

B. No capítulo 2 de A estrutura das revoluções científicas, Kuhn afirma que há "três focos normais para investigação científica dos fatos". Explicar em que consistem esses três focos.

1- Determinação do facto científico. Determinar quais os factos significativos num determinado âmbito paradigmático.
2- Harmonização dos factos com a teoria. Estabelecer a concordância dos factos com a teoria
3- Articulação da teoria. Garantir o rigor, a precisão da teoria.

C. A partir da leitura do cap. 3, explique o que Kuhn quis dizer ao afirmar que nos períodos de ciência normal a prática científica está primariamente voltada para a resolução de quebra-cabeças.
1. Quando partimos para a resolução de algum jogo partimos com a convicção que tem uma solução.
2. Testam a engenhosidade dos cientistas.
a) Leis, conceitos e teorias.
b) Instrumentos e métodos de uso.
3. Qualquer quebra-cabeças obedece a regras.
4. Também a ciência quando parte para um problema encara-o como enigma que, à partida tem solução dentro das regras do paradigma.
5. Qualquer problema que não seja explicado pelo paradigma é suspenso até melhor oportunidade.

D. Capítulo 5 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar por que as descobertas científicas não são apenas produtos de observações muito precisas. O que mais está envolvido nas descobertas, além das observações?

1. Anomalia: reconhecimento de que, de alguma forma, a natureza violou as expetativas paradigmáticas que governam a ciência normal.
2. Trabalho do paradigma no sentido da anomalia se converter no esperado.
3. Como exemplifica a nomeação de Priestley ao gás que pretensamente isolou: «óxido nitroso» e «ar desflogistizado»

E. Capítulo 6 de A estrutura das Revoluções Científicas. Explique por que o surgimento de uma nova teoria tipicamente só surge após um fracasso na atividade normal de resolução de problemas.
Ser admiravelmente bem-sucedida não significa ser totalmente bem-sucedida.
1. Fatores internos: Insegurança dos cientistas; fracasso do paradigma em resolver os seus próprios problemas.
2. Factores externos: Pressões socioculturais e religiosas.

F. Capítulo 7 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar a diferença entre entre anomalias e contra-exemplos e a ideia de incomensurabilidade.

G. Capítulo 8 de A estrutura das revoluções científicas. Explicar por que "a escolha entre paradigmas competidores coloca frequentemente questões que não podem ser resolvidas pelos critérios da ciência normal".

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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Paul Feyerabend




Filósofo austríaco, controverso, conhecido por sair pela janela depois das aulas e arrancar com a sua potente moto, escreveu obras importantes ao nível da epistemologia: Adeus à Razão, Contra o Método, Ciência numa Sociedade Livre, são obras marcantes e simultaneamente sintomáticas do seu projeto epistemológico.
Contraindução, a ideia de progresso científico, a incomensurabilidade das teorias e a condição de coerência são os conceitos mais pertinentes.
Com recurso permanente à história da ciência, F. tenta provar a máxima de que as alterações científicas se deram por um processo anárquico. «Vale tudo» é a nova metodologia, provando que a história nas suas mais variadas vertentes, é multiforme e variada, estando repleta de acidentes e justaposição de eventos, tal como acontece no desenvolvimento considerado em sentido lato. Percorrendo a história civilizacional da Europa, e recorrendo a Mill, F considera que a civilização europeia alcançou certo patamar de desenvolvimento, não por encerrar uma qualquer excelência superior, mas por promover uma grande variedade de caminhos (Adeus à Razão, pág 45). Mesmo havendo aqui ou ali alguma intolerância e tentativa de imposição das ideias, raramente tal aconteceu. O anarquismo metodológico favorece a concretização do progresso em qualquer dos sentidos. Grande parte do mundo é desconhecida pelo que se deve estar aberto a alternativas. O que se deve exigir de um cientista? Polivalência e Versatilidade.
Existem inúmeras provas de que assim deve ser, ou pelo menos de que assim é. F. , ao contrário de Popper, não quer demonstrar que a ciência deva ser de tal forma, mas que os procedimentos são de certa forma. No desenvolvimento da criança a actividade lúdica inicial é um requisito básico para a compreensão. O adestramento torna a pessoa obediente mesmo perante algumas perplexidades. A uniformidade debilita o poder crítico.
Contraindução
O cientista terá, assim, uma única via: aceitar todas as outras. Numa crítica à ciência, F advoga a persecução de metodologias diferenciadas e pluralistas. Habitualmente o trabalho científico é conservador, mono dinâmico e visa essencialmente tornar forte o argumento fraco. Como? Optando por metodologias unívocas e impostas. Ora, este procedimento é contrário àquilo que F pretende porque pressupõe uma atitude ingénua face ao homem e à circunstância social.
O método tradicional empírico-indutivo baseia o progresso de uma teoria a partir do confronto com factos, indo ao encontro da noção que F introduz de Condição de Coerência (Contra o Método, pág 47 e ss).
Não existem factos brutos. Os factos científicos puros são reflexo de uma aceitação dogmática dos procedimentos metodológicos impostos e impedem o alcance da melhoria dos conhecimentos. Baseando-se mais uma vez em Mill (Adeus à Razão, 46 e ss), F. apresenta um conjunto de razões para a defesa da diversidade metodológica:
1.      Uma perspetiva rejeitada pode conter alguma verdade.
2.      Somos falíveis quando às nossas ideias.
3.      Uma verdade incontestada será considerada um preconceito.
4.      A sua adesão é meramente formal, a não ser que seja confrontada.
5.      Proibir o confronto com outras teorias significa contrariar a própria essência da ciência.

Não aceitar isto é não aceitar a ciência. Contudo, uma pequena ressalva. F. não abdica da necessária seriedade científica nem mesmo do seu método recorrente – o empírico indutivo. A sua crítica é estabelecida pela forma como este método é aplicado e pela maneira como se estabelece a demarcação entre ciência e não ciência. Em conformidade com isto, a objeção de F. aplica-se àquilo que as teorias consideram racional num dado momento. Recorrendo a Galileu, F afirma que as suas teorias foram consideradas irracionais relativamente ao status quo científico dominado pelo paradigma aristotélico. Sendo assim, parece mais vantajoso aceitar as teorias que à partida são consideradas irracionais a aceitar simplesmente os facto que podem ou não sustentar a teoria existente. Por este motivo, F afasta-se de Popper. Enquanto Popper afirma a necessidade de testes, F afirma a importância de aceitação das teorias diferentes e consideradas irracionais para a época.

A ideia de incomensurabilidade das teorias, a par de Kuhn, também é advogada por F. A ideia base é a constatação de que não existem factos brutos e que, por isso, a observação depende da teoria. Não existem observações puras. Assim como na mecânica clássica todos os objetos físicos têm forma, massa e volume, na teoria da relatividade o que existe são relações entre objetos de acordo com um certo ponto de referência. Como consequência, qualquer enunciado observacional que se refira a objetos físicos dentro da mecânica clássica terá um significado diferente para um enunciado observacional aparentemente similar na teoria da relatividade. Não existe um processo cumulativo, antes se assiste a uma rotura. Da mesma forma, a teoria ondulatória só ocorreu porque alguns decidiram não se deixar limitar por certas regras. Sem o mau uso da linguagem não pode haver progresso nem descoberta.